Imagem ilustrativa da imagem A vida como um desenho animado



Passar o dia olhando o smartphone, o tablet e outras tantas telas iluminadas até ferir nossos olhos, num vaivém de informações em série ou círculos viciosos, não é nada perto do que fazia a humanidade no passado. Posso estar errada , mas com tanta tecnologia perdemos a experiência viva, a experiência "in loco", o tête-a-tête com a natureza, o instinto da pesquisa, a mera curiosidade, e olhamos o mundo por um filtro que parece nos trazer um conhecimento fast food, que não é a mesma coisa de saber cozinhar o feijão.
Podem rir, mas andei pensando na precocidade das pessoas que fizeram descobertas no passado, gênios do século 18 ou 19 que nem sonhavam com o rádio e faziam coisas absurdas se pensarmos nas suas "limitações".
Pensem por exemplo no naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), o precursor da ecologia, considerado o "inventor da natureza", expressão que antes dele nem sequer existia da forma como a conhecemos hoje. Precoce, aos 20 anos ele transformou-se em inspetor de minas, fico pensando que meus filhos na mesma idade só conhecem "minas" como uma corruptela de "meninas" e se comunicam de forma tão sintética que às vezes penso que a intenção seja eliminar a linguagem. Quando usam meu celular e pego um trecho de conversa deles com os amigos tenho a impressão que estou lendo um texto em código, em que a mensagem é sempre reduzida a um balbucio: "E aí, cara?" "Preguiça, mano." Embora seus conhecimentos não se limitem a isso.
Mas vamos voltar a Humboldt que ao ter a curiosidade despertada pelo italiano Luigi Galvani (1737-98) sobre a "eletricidade animal", tratou de pesquisar ele mesmo a natureza dos seres vivos e espetou, cutucou e eletrocutou rãs e camundongos, segundo seus biógrafos. Ao todo foram cerca de 4 mil experimentos, número expressivo para quem como eu não sabe trocar nem a resistência do chuveiro, quem dirá pegar rãs com agulhas ou caçar sapos para experiências científicas.
Humboldt foi amigo de Goethe, o poeta alemão que também amava as ciências naturais e, assim, passavam horas discutindo zoologia, botânica e química, com direito a uma conversa rápida sobre a formação dos vulcões. Dizem que uma conversa com Humboldt equivalia a ler pelo menos oito livros.
No fim do século 18, Humboldt aportou na América Latina junto com outro curioso muito inteligente: o cientista francês Aimé Bonplant (1773-1858). Os dois desembarcaram num lugar chamado Nova Andaluzia, hoje conhecido como Venezuela. O lugar decerto era uma maravilha e os cientistas trouxeram na bagagem microscópios, telescópios, bússolas e outros instrumentos para embarcar numa expedição pelo rio Orinoco em 1800, onde descobriram um canal que fazia conexão com a bacia do Amazonas. Incansáveis, ao voltarem do canal tomaram um veleiro e foram parar em Cuba, depois foram a Cartagena – hoje Colômbia – seguindo em frente até chegarem a Lima para depois cruzarem os Andes. Ou seja, aos 31 anos, Humboldt tinha inspecionado minas, feito experimentos com eletricidade, cruzado continentes, descoberto um canal fluvial, velejado até a América Central e ainda deu um jeito de escalar algumas das montanhas mais altas do planeta.
Francamente? Eu me canso só de pensar, ao mesmo tempo que fico extasiada com este nível de conhecimento que uma única pessoa é capaz de atingir e revelar ao mundo.
Claro que li tudo isso numa tela de computador, mas lamento que minha curiosidade esteja limitada a mover os dedos e os olhos, enquanto o mundo se descortina ao longe, colocando-me a muitos toques de distância de experimentar como cozinha-se o feijão, espeta-se uma rã, eletrocuta-se um rato, descobre-se um canal e zarpa-se para Cuba. Sem a prática e tendo ao meu alcance o conhecimento teórico sobre as descobertas, resta-me chamar o Uber para meu filho e ficar acompanhando o trajeto do automóvel pelas ruas, movendo-se como uma barata tonta. O que não deixa de ser fantástico, mas tendo à disposição tanta tecnologia, aprendo que tudo isso não significa exatamente experimentar as coisas, mas sua representação. Algo assim como conhecer a vida através de um desenho animado.

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