Um fica na América do Sul, outro na Ásia. Um é grande e engatinha no desenvolvimento, o outro é pequeno e considerado uma das principais potências do mundo. Distantes como o Sol e a Lua, Brasil e Japão se completam nas suas diferenças, como se um ponto invisível unisse seus territórios.

Vulcões de um lado, grandes extensões de terra de outro, máquinas de precisão feitas por mentes matemáticas, máquinas de diversão elaboradas por quem engendra o Carnaval. No meio de tudo uma empatia, um não-sei-o- quê capaz de fazer japonês cair na folia e brasileiro aprender a plantar cenoura com o capricho dos agricultores que fazem canteiros milimétricos.

Nunca povos tão diferentes se deram tão bem e quem nasceu em cidades com forte influência nipônica, como Londrina, não saberia mais viver sem saquê, udon, sushi e as graciosas coreografias na festa do Bon Odori. Assim como meu vizinho Takashi não vive sem feijoada e é um ás na caipirinha, cortando limões com velocidade espantosa. “Boa de tomar, né?” – ele me diz com um sorrisinho amarelo.

Eu, além de prestar atenção em tudo isso, gosto mesmo é de observar pequenas sutilezas que fazem a diferença entre as culturas. Como repórter, aprendi sobre a arte de “dizer muito sem falar nada” com os japoneses. Nas entrevistas, o jeito era esquecer os bloquinhos de notas. Como reação a algumas perguntas consideradas “objetivas”, ouvi muitas vezes o subjetivo “hammm”. Quase um mantra, que é o modo deles demonstrarem que estão pensando no assunto limpando primeiro a garganta.

De poucas palavras, os japoneses são pródigos em ideias. Da sua concisão nasceram os hai kais, a síntese poética perfeita, um arranjo de vocábulos que resulta em cenas como se o verso fosse um pequeno filme, uma minúscula peça com começo, meio e fim. Sem contar que há sempre uma “moral da história”, um algo a se pensar como a filosofia em pílulas ou o conhecimento em pérolas.

Por falar em pérolas, me lembro das ostras e do quanto os japoneses amam o mar, a ponto de serem grandes criadores de peixes e de aquários. Um aquário japonês sempre terá profundidade, ainda que seja raso. Há uma profusão de pedras, de plantas, algas translúcidas e espécies de seres marítimos que nunca se iguala a outros aquários do mundo.

Também lidam com plantas como ninguém. Um jardim japonês tem muito significado e detalhes tão delicados que roubam nosso olhar, incitando-nos àquilo que no Oriente se chama contemplação. Nas cerimônias do chá, o jardim tem papel fundamental. As salas sempre se abrem para eles enquanto se derrama a água quente sobre a erva verde, os olhares se perdem nos arranjos, nas pedras e na água que formam um verdadeiro cenário, porque os japoneses são assim, personagens que criam para tudo uma pequena história.

Ocidentais afoitos e apressados nunca compreenderão o significado da cultura tradicional do Japão. Há profusão de leques e de sutilezas, de passos de gueixas e de quimonos repletos de passarinhos. Mas há também o Japão tecnológico, de uma Tóquio que nunca vi, mas adivinho cheia de costumes novos, uma mistura de homens e máquinas, trespassada pela beleza hipnótica dos edifícios envidraçados.

Esse Japão moderno também nos envia recados em computadores cada vez menores, em celulares que parecem pequenos cérebros vindos do futuro para desembarcar no planeta. O Japão não para de condensar a tecnologia em modelos sintéticos, repete a lição de quem diz muito falando pouco, de quem faz poesia em três versos e muda a escala dos aquários transformando-os em oceanos de múltiplas espécies.

Essa vocação, essa predisposição, esse “ilusionismo” de transformar o pouco em muito, sempre me fez admirar o Japão. É como transmutar pedra em pão, sonho em realidade, o Monte Fuji numa cordilheira. Sem falar que Takashi continua fazendo caipirinhas com velocidade espantosa.

* Texto adaptado do livro "A Cidade na Retina", de Célia Musilli.

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