'A Odisseia' : a força poética de um mito
Enquanto críticos azedos semeiam ácidas considerações sobre o filme de Christopher Nolan, os barcos passam
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sábado, 25 de julho de 2026
Enquanto críticos azedos semeiam ácidas considerações sobre o filme de Christopher Nolan, os barcos passam

Na noite da última quarta-feira, uma fila se formava na entrada do Cine Villa Rica, no centro de Londrina, repetindo a cena que se reproduz em todas as salas da cidade. Não importava se a chuva caia, se a noite convidava a ficar em casa, se era dia de semana: todos queriam ver "A Odisseia", filme de Christopher Nolan que atrai tanto o público jovem quanto as senhorinhas que entram nas filas com seus baldes de pipoca para encarar heroicamente, mas com prazer, as quase três horas de filme.
"A Odisseia" provoca os mais diversos sentimentos na versão cinematográfica que também vem merecendo um verdadeiro resgate da história milenar em reportagens e entrevistas que levantam a poeira do tempo. Ou melhor, levantam a areia do tempo nas ilhas paradisíacas da Grécia, onde a mitologia resiste em narrativas antes e depois de Homero. "A Odisseia" é a demonstração da força da oralidade na história que foi, finalmente escrita, há cerca de 2.700 anos.
Ainda hoje levantam-se os debates sobre a realidade e a ficção. Odisseu existiu? Não existiu? Não importa, já que é mito fundador da civilização ocidental e sua história - "A Odisseia" - equipara-se à importância da Bíblia na literatura. São dois livros fundadores da cultura.
Esta semana, a revista Superinteressante trouxe o debate sobre a existência de Odisseu e suas pegadas na Grécia. Das páginas do poema épico de Homero salta um personagem revirado nas areias da ilha de Ítaca, onde existe um templo que mostra o quanto ele já foi adorado.
No local de culto foram encontradas moedas, joias, teares como o que supostamente foi usado por Penélope para tecer uma túnica enquanto aguardava a volta do marido - que partira para a guerra de Troia - durante dez anos, enganando os pretendentes que a assediavam com o machismo reinante. Um trabalho interminável, feito de dia, desfeito de noite, num exercício de astúcia feminina.
Mas a revelação mais empolgante é que nas escavações realizadas em 2018 surgiram três ladrilhos com a inscrição "de Odisseu" e "para Odisseu", mostrando que lenda ou verdade, o culto ao herói é um fato. E, nisso, não se pode excluir a análise de que na mesma linha de raciocínio, os anjos, assim como os heróis, têm sua existência posta à prova, sem que a força de suas influências se extinga.
Abordando o assunto nas redes sociais, o padre Manuel Santos - colaborador da FOLHA em muitos artigos - fez um comentário interessante, a de que Odisseu ou Ulisses (seu nome latino) teria fundado Lisboa.
Ele explica: "Os autores da Antiguidade contavam uma lenda que atribuía a fundação de Olissipo (nome antigo de Lisboa) a Ulisses, o herói da mitologia grega (...) Ulisses teria fundado num local incerto da Península Ibérica, uma cidade chamada Olissipo, supostamente nas margens do rio Tejo."
Essa história merece ser desmembrada num artigo do próprio Manuel Santos. Fica o apelo, juntamente com a recomendação da leitura da crítica de Carlos Eduardo Lourenço Jorge sobre o filme "A Odisseia" na edição da Folha 2 neste fim de semana.
Enquanto críticos azedos semeiam ácidas considerações sobre o filme de Christopher Nolan, os barcos passam. Do século 8 a.C. aos dias de hoje, a ficção se mistura com a realidade. A fantasia é um luxo que nos embala em tempos duros, de Odisseu à contemporaneidade.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


