CÉLIA MUSILLI -

A morte da cultura no centenário de Cacilda Becker


Tristes tempos em que o centenário de Cacilda Becker, completado no último dia 6, passa quase batido. Vi  sua memória em poucos veículos de imprensa, como o Estadão, a Folha de Londrina, o Canal Brasil. Além das homenagens no Itaú Cultural  e no Teatro Oficina. 

Cacilda foi imensa, a ponto de Carlos Drummond de Andrade ter mudado a gramática para falar de sua morte aos 48 anos, em cena, porque ela tombou no palco. Ele escreveu “Morreram Cacilda Becker.” Verso que representa as tantas Cacildas do teatro que morreram com ela.

 

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. | Marco Jacobsen
 


Neste momento de pandemia também morrem Cacildas. Quero dizer da falta que nos faz o teatro, os espetáculos de qualquer linguagem, num momento em que só temos as lives e, raramente, uma esquete encenada na varanda de um edifício. Se não fossem os serviços de streaming, nosso isolamento seria ainda mais triste, me recupero da fila das mortes assistindo filmes, espetáculos de dança, as séries nas quais os enredos duram mais, numa tentativa de estender as relações com os personagens, já que vemos pouco as pessoas.


O mais triste é saber que a cultura também morre numa outra pandemia, a dos poucos investimentos públicos e da falta de gestão naquela esfera que poderia fazer muito por ela.. Na esfera federal sentimos a falta de um Secretário da Cultura  - porque nem ministério existe mais - que realmente tivesse afinidades com a produção cultural em rede, de norte a sul, numa política que respondesse aos anseios de uma nação que já brilhou no mundo por sua música, sua literatura e seu cinema. 

 Antes dele, tivemos uma cena de horror no ensaio de gestão de Roberto  Alvim que, por sua história no teatro, poderia ter feito na política alguma coisa mais notável do que encenar seu discurso de posse com estética nazista.  A cultura também poderia ter contado ao menos com a simpatia de Regina Duarte pelos artistas, com os quais ela compartilha o DNA. Mas que nada, a "namoradinha do Brasil", ideologicamente atrapalhada, entrou e saiu do governo apenas como a "noivinha do presidente." 


É neste ambiente cultural de penúria que me lembro de Cacilda Becker que atuou em 70 espetáculos e morreu em cena.   Hoje, quando só a morte é notícia em números que abordam pelas beiradas a tragédia nacional, pouco se fala do teatro, quem dirá de Cacilda Becker.  Mergulhados no assombro da finitude implacável que, além de notícia, é destino de todo dia, fechamos, de segunda a segunda, as manchetes com os números das mortes. Fora isso, algum acidente grave. Assaltos? Só se for es-pe-ta-cu-lar.


Neste novo mundo, a arte perdeu espaço  porque a arte é também  vivência do coletivo, muitas vezes da multidão, da encenação para um público vivo. Assim, a lembrança  do centenário de Cacilda Becker e sua morte no palco, em 1969, encenando "Esperando Godot", tornou-se uma "memória especializada", para poucos leitores, no cemitério em que se converteu o Brasil.

Hoje, as mortes diárias se sucedem de 1 mil para cima, a morte isolada nem conta.  Mas na fresta sensível sobraram os que rememoram a vida e a morte de Cacilda Becker e lamentam a falência dos palcos, naquele modo ao vivo, enquanto durar a pandemia. Tristes, continuamos a esperar o teatro como quem espera Godot.


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