A meditação dos Javalis Selvagens
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Célia Musilli 

A história de Teseu, o herói grego que enfrentou o Minotauro, não teria o mesmo desfecho se não fosse o fio de Ariadne, a filha do rei de Creta que encontrou uma forma de identificar o caminho de volta do labirinto onde o herói lutou e venceu o monstro. Esticando um fio, dado por Ariadne que sugeriu a inteligente artimanha, Teseu voltou da batalha, de vida ou morte, guiando-se de forma segura.
Lembrei-me do mito esta semana, quando vi os mergulhadores que adentraram uma caverna na Tailândia para resgatar os 12 meninos e o técnico do time de futebol amador Javalis Selvagens. Eles foram guiados por uma corda que lhes indicava o caminho de volta, num ambiente frio, acidentado e inundado por água lamacenta, para trazer o time de volta. A bravura dos Javalis Selvagens e seus salvadores extrapola os campeonatos, a partir do resgate que comoveu o mundo. Meninos e mergulhadores se transformaram em heróis contemporâneos numa odisseia inusitada.
Acostumado às tragédias diárias, que raramente têm um final feliz, foi com espanto e alegria que o mundo testemunhou uma história real que misturou aventura, drama, medo, muitas orações e um desfecho digno de filme. Não demora muito e veremos no cinema o resgate dos meninos da Tailândia ou um livro cujos heróis serão os garotos frágeis, que têm entre 11 e 16 anos, e passaram 18 dias ancorados no ponto mais alto de uma caverna sombria. Acuados por uma inundação num período de chuvas que chegou antes da temporada prevista na Tailândia essa caverna é fechada a partir de 1º de julho para evitar riscos no dia 23 de junho o time de futebol entrou numa aventura que por pouco não se transforma em tragédia. Munidos com alguma comida, poucos agasalhos e lanternas, eles entraram no labirinto do qual não sairiam, se não fosse a ação de uma equipe especializada de mergulhadores que enfrentou o perigo para tentar o resgate, mesmo depois da morte de um deles nos primeiros dias da tentativa de salvamento.
Dia após dia, vimos os meninos sendo resgatados enquanto a torcida pela vida superava a torcida pela Copa do Mundo, transformando os Javalis Selvagens num dos grandes times do planeta por razões alheias à bola em campo.
Nas redes sociais, em meio ao drama, não faltaram pessoas raivosas que passaram a cobrar atitudes de quem se sensibilizou com a situação dos meninos tailandeses, citando as mazelas que atingem a infância do nosso próprio País. Para mim, isso é coisa de quem põe viseira nos sentimentos, territorializa humanismo e restringe a solidariedade. Nunca deixaremos de lutar e nos compadecer pelas crianças da Síria, pelas vítimas de balas perdidas na favela da Maré ou pelos meninos da Tailândia. Humanismo não tem fronteiras nem etnia.
Na semana em que a maior vitória foi assistir ao salvamento de um time de garotos que poderiam ser nossos filhos, não cabe revidar a crítica dos raivosos de plantão que ideologizam tragédias e disputam protagonismo. A única ação sensata é torcer pela vida em dimensão planetária.
Aos raivosos também não cabe a crítica irada, isso seria nivelar emoções. A melhor resposta é a imagem dos meninos em meditação budista que correu o mundo e os ajudou a se manterem vivos num ambiente insalubre, com poucas chances de sobrevivência. O técnico do time, Ekaphol Chantawong, é um ex-monge que os estimulou a meditar para enfrentar o perigo, assim como deixou de comer para que os meninos tivessem mais alimentos durante o período em que foram rondados pelo sofrimento e a morte.
A lição que fica é a da solidariedade em torno daqueles que sofrem e daqueles que se arriscam pela vida, não importa se em Xangai ou na Bahia. Fica a reflexão para quem julga e o desejo de paz para quem sente raiva.
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