A leoa e o rapaz em surto: dois prisioneiros
Gerson de Melo Machado morreu atacado por uma leoa com a mesma inocência com que viveu: era portador de esquizofrenia
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 2025
Gerson de Melo Machado morreu atacado por uma leoa com a mesma inocência com que viveu: era portador de esquizofrenia

Era um domingo como outro qualquer em João Pessoa (PB), no qual as pessoas passeavam no Parque Arruda Câmara, conhecido como Bica. De repente, uma cena insólita: Gerson de Melo Machado, 19 anos, desce por uma árvore e escorrega de uma altura de seis metros para entrar no recinto animal do Parque, onde estava a leoa Leona.
Gerson e Leona se entreolharam, vídeos mostram que o rapaz ainda sorriu quando viu a leoa, antes de ser atacado e morrer ali mesmo. Gerson morreu com a mesma inocência com que viveu. Era portador de esquizofrenia, doença que cria um estigma tão forte que muitos nem pronunciam seu nome. Era filho de uma mulher com o mesmo transtorno.
Ele morreu pela inocência e ausência de criticidade das pessoas em surto. Morreu abandonado não só pela família impotente, mas também pelo Estado.
Antes da tragédia, Gerson havia sido preso por pequenos delitos. Consta que os praticava para ir para os centros socioeducativos onde ficam os menores infratores. Nestes locais podia se alimentar e se sentia acolhido.
Gerson era fascinado por leões desde criança, sonhava ir para a África para conviver com os felinos. Tentou materializar o sonho aqui mesmo, no Brasil, quando escalou uma árvore e escorregou até a jaula de Leona.
Gerson aparece sorridente em suas poucas fotografias, quando não sorria com a boca, sorria com os olhos. É fácil notar o brilho no olhar maroto que corresponde ao de um jovem pacífico. Pessoas com transtornos mentais às vezes riem sem motivo. Seguem a vida por conta própria, mesmo com experiências sofridas, às vezes também cantam e assobiam.
Observo alguns desses risos e monólogos delirantes quando ando pelas ruas de Londrina e vejo os desvalidos dos quais muita gente têm medo. Com a divulgação de casos fatais por causa dos surtos, há quem considere que todos os doentes mentais são perigosos, mas com tratamento adequado eles vivem de forma comum, mas nunca serão "normatizados" como exige uma sociedade que capta muito mal os sinais e as demandas das pessoas diferentes.
A discriminação de doentes mentais é caso antigo no Brasil. Em 2001 foi implantada a Lei Antimanicomial que prevê a extinção de manicômios e hospícios. Uma página sofrida que tratei numa dissertação de mestrado, defendida na Unicamp em 2014: "Literatura e Loucura - a Transcendência pela Palavra", na qual analiso a obra da escritora esquizofrênica Maura Lopes Cançado que denunciou o sistema psiquiátrico de então no livro "Hospício é Deus", publicado nos anos 1960.
Pela pesquisa, conheci as agruras do sistema manicomial no Brasil, preservado por décadas como um depósito de gente, nele ficavam pessoas com transtornos e todo tipo de rejeitados: de mães solteiras a alcoólatras, sem distinção.
Os hospícios foram fechados pela Lei Antimanicomial, a ideia era a ampliar os CAPS - Centros de Atenção Psicossocial - pelo País, uma rede humanizada de apoio para quem sofre de transtornos mentais que hoje presta serviços relevantes, mas precisa de uma infraestrutura muito maior.
Gerson sorria, mas foi prisioneiro de uma sociedade que estigmatiza e de um Estado que ignora ou trata com recursos escassos quem mais precisa. Gerson era prisioneiro de seu estado mental, a leoa uma prisioneira capturada na África e mantida em jaula. Ambos se encontravam em prisões diferentes e protagonizaram um encontro fatal: ela por seu instinto animal contido por grades, ele pela imaginária realização de um sonho que suplantava o senso crítico. Ambos agiram por uma espécie de inocência que redundou na tragédia anunciada.
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Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


