A história de Anayde Beiriz quase 100 anos depois
Lembrar essa trajetória é mais uma homenagem à mulher que a literatura e o cinema ajudam a tirar da invisibilidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de outubro de 2025
Lembrar essa trajetória é mais uma homenagem à mulher que a literatura e o cinema ajudam a tirar da invisibilidade

De vez em quando deparo-me com Anayde Beiriz, uma mulher que tragicamente faz parte da história da revolução de 1930, a que levou Getúlio Vargas ao poder.
A professora e poeta paraibana, nascida em 1905, é figura central do livro "Anayde Beiriz - Paixão e Morte na Revolução de 30" (CBAG - RJ), publicado por José Joffily em 1980. Ainda estudante de jornalismo, fui auxiliar do autor quando ele escrevia o livro e, ao fim, ele me deu o privilégio de escrever o prefácio.
Até então, nunca tinha ouvido falar de Anayde, fato comum sobre as mulheres que fazem parte da história, mas são mantidas na invisibilidade. Depois, o nome de Anayde começou a circular com mais frequência na imprensa e foi objeto de outros livros.
A obra de Jofilly, paraibano radicado em Londrina, onde faleceu em 1994, é uma colaboração decisiva para Anayde se tornar figura viva da história. O livro foi roteirizado por seu filho, cineasta que tem o mesmo nome do pai, e levado às telas sob a direção de Tizuka Yamasaki, com o nome "Parahyba Mulher Macho", com Tânia Alves no papel principal, em 1983.
A lembrança desses episódios, hoje mais conhecidos na história, se deve a um e-mail que recebi esta semana do jornalista e poeta Linaldo Guedes, editor da Arribaçã (PA), que juntamente com a professora e atriz Porcina Furtado está preparando um dicionário para mapear autoras paraibanas de todos os tempos. No dicionário, o nome de Anayde Beiriz vai figurar em mais um capítulo de memória por sua atuação como mulher, professora e poeta nos longínquos anos de 1930, quando foi personagem de uma drama politico e amoroso.
Anayde foi noiva de João Dantas, advogado e jornalista que por razões pessoais e políticas assassinou João Pessoa, então candidato a vice-presidência da República na chapa de Getúlio Vargas.
Após o crime, ocorrido em Recife, João Dantas foi preso e Anayde, impossibilitada de permanecer na Paraíba, o visitou na cadeia até sua morte. Dantas foi decapitado na prisão, fato que foi mascarado na época como um possível suicídio.
O drama de Anayde começou no momento em que o escritório de João Dantas foi arrombado pela polícia e as cartas que ele trocava com a noiva foram levadas à público em mais uma daquelas tentativas absurdas de desmoralizar uma mulher a partir de sua vida íntima. Pressionada de todas as formas, durante a prisão e após a morte de Dantas, Anayde se matou por envenenamento aos 25 anos.
À frente de sua época, Anayde não foi apenas uma mulher avançada porque cortava os cabelos à garçonnière ou usava roupas decotadas. O corpo politizado apenas sinalizava suas ideias.
Guardo um de seus poemas que diz muito sobre sua condição de mulher e feminista.
“Nasci/ Nasceu/ Cresceu/ Namorou/ Noivou/ Casou/ Noite nupcial/ As telhas viram tudo/ Se as moças fossem telhas não se casariam”
José Joffily cita que a poeta foi sepultada como indigente num cemitério de Recife. O poema vai ao encontro da homenagem que o autor lhe presta na última frase do livro quando, simbolicamente, deposita flores no túmulo de Anayde, "com um atraso de 50 anos."
No limiar dos 100 anos da Revolução de 30, lembrar esse episódio é mais uma homenagem à mulher que a literatura e o cinema ajudam a tirar da invisibilidade.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


