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Londrina

CÉLIA MUSILLI 5m de leitura Atualizado em 16/01/2022, 20:18

A foto dos filhos sobre a cômoda

PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de janeiro de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

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A fotografia em cima da cômoda mostra a mãe com os filhos gêmeos pela mão para que não corram. Pequenos, perto dos dois anos ainda, eles estão sorridentes, a mãe também sorri, embora com os braços tensos para segurar os meninos, um em cada mão. Se fossem três, ela sempre pensa, precisaria ser um polvo.

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. |  Foto: Marco Jacobsen
 

O impulso das crianças para correr mostra vitalidade, uma explosão de desejos em movimento, a vontade de sair pelo mundo, soltar-se da mãe para depois voltar pedindo proteção na hora do sono. Criança para dormir exige presença da mãe ou pai muitas vezes, uma condição que se transforma em alegria  desapegada quando acordam. Dormir e acordar exigem condições diferentes e assim será por toda a vida. No sono, o aconchego do escuro, no despertar, a liberdade de quem vê a vida na luz da janela.

O ímpeto infantil desenha boa parte da vida. Nas aulas de natação, na vontade de andar de bicicleta, subir em árvores, quebrar o tornozelo na tentativa de escalar um poste. Pernas e braços muitas vezes feridos no escorregador ou no patinete, descendo a escada correndo ou batendo num obstáculo, entre tantos, vida afora.

Na adolescência o impulso às vezes vira música, hora de tocar guitarra, o mais alto possível, num show imaginário quase sem plateia ou com os vizinhos reclamando. Depois vem a primeira bebedeira, memorável, com o estômago revirando para lembrar que a vida adulta também exige sabedoria ou viveremos de ressaca, aquela causada pelo álcool e a causada pelas perdas do primeiro, segundo, terceiro amor.

Festas de varar a madrugada e a mãe de olho na janela, de ouvido em pé ao menor sinal da chave, finalmente, girando na fechadura. Enquanto moram juntos, mãe não dorme enquanto os filhos não chegam, como se ainda fosse possível cobri-los com a manta dos excessos e o exagero do prato de comida no forno.

Há filhos que crescem independentes como brotos de bananeiras, espevitados, outros demoram mais para voar, outros ainda, por limitações de saúde, serão dependentes em quase tudo.

Os filhos sempre irão nos olhar de uma foto da infância. Tempos vividos, situações de passagem, momentos efêmeros de gargalhadas que passam, assim como o choro. Dor de dente e dor de barriga, campeonatos de futebol e videogame, amigos que vêm e que vão, cidades que habitamos e se tornam invisíveis ao serem trocadas por outras cidades. Namoradas que se tornam companheiras, filhos que se reproduzem em netos. Todos com o mesmo ímpeto e o mesmo sorriso, marca das gerações num mundo de imagens. 

Da fotografia na cômoda, surge o filme de uma vida inteira. 

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Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina. 

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