A estação da liberdade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de junho de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
Fiz uma faxina na minha vida pessoal, incluindo o espaço virtual: deletei todas as mensagens antigas para receber as novas. Deu trabalho: foram centenas de cliques na palavra “apagar”. Um ato que fez meu braço doer e serviu para decifrar recados do inconsciente. Chega uma hora em que é preciso mudar a paisagem, tomar outro trem, para não ficar viajando sem sair do lugar, na mesma estação. O que é bom sempre terá valor, mas cada coisa pertence a um tempo e espaço: as duas medidas que nos regem do começo ao fim.
O novo se impõe a cada dia e não encarar recomeços é viver a mesmice. Vem da natureza o ensinamento de que nada permanece igual. A cada dia há mais ou menos nuvens, flores que despetalam, ninhos que são construídos ou abandonados , pessoas que vão e vêm, essa lição de eterna mudança é o que me faz, às vezes, me despojar das velhas bagagens. Um vestido sem uso é como um afeto que não existe mais, as circunstâncias e coisas são animadas por vida.
Ocorre que sou memorialista por vocação, sempre recolhi as lembranças da família, das cidades, das lugares por onde passei como uma paciente artesã de enredos muito pessoais. Tenho assim na memória, ou mesmo fora dela, um “museu” de experiências valiosas. Mas, de vez em quando, atiro fora os pratos e os sapatos que não uso mais. Ou ponho no uso copos antigos e xícaras nas quais minha mãe, que não está mais aqui, tomou café. Ainda me lembro da sua simplicidade e delicadeza ao pegar louças que só “serviam visitas”, mas que uso no cotidiano só para reviver seu valor.
Meu filho despertou-me o sentido dessa utilidade, de usar pratos e bules, para que “a casa não fique com cara de museu”, ele tem toda razão porque até os museu devem ser vivos. Então recomendo, usem o que vocês guardam por razão afetiva, o amor envolvido estará muito mais presente do que numa jarra guardada numa prateleira para que ninguém a toque. Objetos bonitos devem ser usados, ainda que cuidadosamente guardados depois de lavados e enxutos. Também não dou sopa para o azar de vê-los quebrados, mas eles devem cumprir sua “existência” neste mundo.

Despojo-me daquilo que pode se transformar num peso, se for considerado importante demais num tempo que já passou. O passado não deve contaminar o presente. O apego excessivo às lembranças é o caminho da neurose. Há pessoas que nunca se desligam da casa onde viveram ou do primeiro amor. São assombradas por fantasmas e nem se dão conta de que é preciso fazer um “descarrego”.
Eu ainda me apego a filigranas, até porque uso memórias para minha escrita. Mas de tempos em tempos gosto de reconfigurar minha vida. Ela é uma viagem que não admite excesso de bagagem. Para sair do lugar é preciso ser leve. Para voar é preciso ter asas. Então apago as pegadas de olho na trilha que me leva a não sei que nova aventura. O despojamento é a primeira estação da liberdade.


