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Londrina

CÉLIA MUSILLI 5m de leitura Atualizado em 26/09/2021, 20:54

A beleza como rota de fuga

PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de setembro de 2021

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

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Esta semana, li notícia sobre dois mergulhadores que encontraram um tesouro no fundo do mar. Como nos contos de fadas, os cunhados Luis Lens e César Gimeno mergulharam a 7 metros de profundidade, com apenas um snorkel e pés de pato, e encontraram 53 moedas de ouro do Império Romano, dos séculos IV e V.

A dupla costuma passar as férias de verão em Xábia, um dos pontos turísticos da província de Alicante, na costa mediterrânea da Espanha. Além do prazer de mergulhar, eles fazem um trabalho ecológico retirando lixo do mar.   No dia 23 de agosto, Lens viu um objeto brilhante depositado numa rocha  e, à primeira vista, pensou tratar-se de uma moeda de 10 cêntimos de euro e decidiu pegá-la. De volta à superfície percebeu que a moeda tinha um rosto antigo, "grego ou romano."

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. |  Foto: Marco Jacobsen
 

A dupla mergulhou de novo e com instrumentos improvisados - uma saca-rolhas do barco e um canivete suíço - cavou o buraco na rocha e surgiram mais oito moedas de ouro, então eles  resolveram informar a descoberta à prefeitura de Xàbia. Em novos mergulhos acabaram por formar um conjunto de 53 moedas de ouro que Jaime Molina, professor de História Antiga na Universidade de Alicante - UA -  e responsável por escavações na região, identificou como sendo de períodos distintos,  referentes aos imperadores Valentiniano I (3 moedas), Valentiniano II (7), Teodósio I (15), Arcádio (17) e Honório (10), há também uma peça sem identificação.

O local onde foram encontradas as moedas faz parte da baía de Portitxol, “onde os barcos procedentes da Bética [Andaluzia] aportavam antes de partir para as Baleares, a caminho de Roma”.  Como não há sinais de navios afundados na área, supõem-se que se trate da ocultação voluntária de um tesouro por algum dono de terras da região, num período em que se temia a chegada dos bárbaros à Península Ibérica. 

O episódio tão fantástico quanto a própria história, nos remete aos livros que tratam da caça ao tesouro, sendo que, neste caso, não houve caçada nenhuma, mas um maravilhoso acaso que nos mostra que ainda é possível se deparar com alguma magia no mundo. Sem gênios da lâmpada, mas movidos pela intenção de se divertir e limpar a baía, a dupla de mergulhadores foi contemplada com um prêmio que não se constitui em dinheiro, mas como uma magnífica descoberta.

A arqueologia, como ciência, tem a qualidade de nos revelar mundos, tempos passados nas profundezas do mar ou afundados na areia. As camadas da história ainda podem surpreender por se constituírem no presente um achado da beleza, onde houve a violência das guerras.

Enxergar o mundo por essa ótica, em tempos de fundamentalismos e perdas de valores humanitários, pode ser um alento. No futuro, as marcas da barbárie contemporânea, feita por governos totalitários, também vão refletir o estranho brilho do passado, sob as profundezas,  de rostos de senhores que não existirão mais.  A história também é feita de  violências efêmeras que, com o passar dos séculos, se transformam numa beleza  triste. O que não significa que não embalem, ainda, nosso encantamento diante de um tesouro, como uma rota de fuga da realidade. 

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A opinião dos colunistas não refletem, necessariamente, as da Folha de Londrina.

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