O polonês Andrzej Wajda, um dos grandes nomes da história do cinema mundial, morreu no último domingo
O polonês Andrzej Wajda, um dos grandes nomes da história do cinema mundial, morreu no último domingo | Foto: Fotos: Divulgação



Aos 90, morreu domingo o maior cineasta polonês e um dos grandes nomes da história do cinema mundial, Andrzej Wajda. Nos anos 1980, Londrina conheceu algumas de suas mais corajosas e louvadas obras.
"O bom Deus presenteou os cineastas com dois olhos, um para olhar através da câmera e outro para estar alerta a tudo o que acontece ao seu redor." As palavras de Andrzej Wajda, escolhidas para a página de entrada de seu site na Internet, não são meras palavras de efeito, mas refletem toda uma vida por trás das câmeras, um exercício profissional de intenso e exemplar viés político-humanista. Wajda representa o cinema polonês como nenhum outro, mesmo tendo dirigido também alguns filmes menos notáveis. Durante décadas ele foi a inteligência mais visível de uma das mais poderosas cinematografias do Leste Europeu. Sua morte no inicio da semana em Varsóvia, de insuficiência respiratória, comoveu toda a comunidade cinéfila mundial e em especial os poloneses, que há alguns meses aplaudiram seu último filme, a cinebiografia "Powidoki" (Afterimage), indicado oficialmente para concorrer ao Oscar de melhor estrangeiro em fevereiro.

Em 2000, Andrzej Wajda recebeu Oscar honorário pelas mãos de Jane Fonda
Em 2000, Andrzej Wajda recebeu Oscar honorário pelas mãos de Jane Fonda



Ao longo de sua vida, lutou pela resistência polonesa na Segunda Guerra Mundial, estudou pintura e se formou em cinema na famosa escola de cinema de Lodz. Fez o primeiro longa metragem em 1954; alcançou seu melhor momento com a trilogia "Geração" (55), "Kanal"(57) e "Cinzas e Diamantes"(58); ganhou a Palma de Ouro em "O Homem de Ferro"(81) e recebeu um Oscar honorífico em 2000 pela carreira, com veemente patrocínio de Steve Spielberg, admirador de todas as horas. É o nome de ponta na santíssima trindade do cinema polonês a partir dos anos 1950, o mais influente, ao lado de Jerzy Kawalerowicz ("Faraó") e Wojciech Has ("O Manuscrito de Zaragoza"). Depois viria a geração da nova onda polonesa, liderada por Roman Polanski e Jerzy Skolimowski, que logo deixaram o país por razões ideológicas. Mas foram influenciados e tutelados por Wajda, que retratou a Polônia do pós-guerra, nihilista e ultranacionalista, com agudo olhar crítico.
Wajda voltou a brilhar nas décadas de 1970 e 80, sempre com coração e mente voltados para a complexa e dramática história da Polônia. Entre seus clássicos mais estimados estão "O Homem de Mármore", de 1977, crítica devastadora ao stalinismo na Polônia, e "O Homem de Ferro" (81), narrando as greves daquele período nos estaleiros de Gdansk e a luta pelos sindicatos livres. Com estes dois filmes, Wajda renovou seus votos com o cinema de autor da época e assegurou o compromisso social acima do risco artístico. São também deste período algumas bem-sucedidas experiências internacionais, como "Danton" (82), com Gerard Depardieu, "Um Amor na Alemanha"(83), com Hanna Schygulla, e "Os Possessos" (88), com Isabelle Huppert, segundo a novela de Dostoievski. Andrzej Wajda é o exemplo perfeito do artista total (foi também pintor e homem de teatro), com ampla formação intelectual, de educado sentido estético e sempre empenhado em fazer do cinema um veículo de discussão de ideias. Já nos tempos da Polônia livre, depois da queda do muro, Wajda seria senador da República entre 1989 e 91, e no cinema retornaria ao tema do sindicato Solidariedade com seu apaixonante "Walesa – a esperança de um povo" (2013), sobre o líder operário Lech Walesa.
O melhor do cinema de Wajda teve bom espaço em Londrina nos anos 1980, quando o saudoso Cine Ouro Verde exibiu em suas históricas sessões de meia-noite o díptico "Homem de Ferro" e "Homem de Mármore". Também foi apresentado naquela época "Danton", um dos melhores filmes sobre a Revolução Francesa e que permite leituras contemporâneas em tempos de traições, golpes e contragolpes. Foi precisamente Spielberg, o maior avalista do Oscar honorário entregue por Jane Fonda a Wajda em 2000, que faria o melhor elogio ao cineasta polonês: "O exemplo de Andrzej Wajda nos faz lembrar, a todos nós cineastas, que, de vez em quando a História pode reclamar profundas tomadas de posição nossas, que nosso público pode pedir a nós animo espiritual; que podemos ser solicitados a arriscar nossas carreiras para a vida civil de nosso povo."

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