Wajda, artista total
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Aos 90, morreu domingo o maior cineasta polonês e um dos grandes nomes da história do cinema mundial, Andrzej Wajda. Nos anos 1980, Londrina conheceu algumas de suas mais corajosas e louvadas obras.
"O bom Deus presenteou os cineastas com dois olhos, um para olhar através da câmera e outro para estar alerta a tudo o que acontece ao seu redor." As palavras de Andrzej Wajda, escolhidas para a página de entrada de seu site na Internet, não são meras palavras de efeito, mas refletem toda uma vida por trás das câmeras, um exercício profissional de intenso e exemplar viés político-humanista. Wajda representa o cinema polonês como nenhum outro, mesmo tendo dirigido também alguns filmes menos notáveis. Durante décadas ele foi a inteligência mais visível de uma das mais poderosas cinematografias do Leste Europeu. Sua morte no inicio da semana em Varsóvia, de insuficiência respiratória, comoveu toda a comunidade cinéfila mundial e em especial os poloneses, que há alguns meses aplaudiram seu último filme, a cinebiografia "Powidoki" (Afterimage), indicado oficialmente para concorrer ao Oscar de melhor estrangeiro em fevereiro.

Ao longo de sua vida, lutou pela resistência polonesa na Segunda Guerra Mundial, estudou pintura e se formou em cinema na famosa escola de cinema de Lodz. Fez o primeiro longa metragem em 1954; alcançou seu melhor momento com a trilogia "Geração" (55), "Kanal"(57) e "Cinzas e Diamantes"(58); ganhou a Palma de Ouro em "O Homem de Ferro"(81) e recebeu um Oscar honorífico em 2000 pela carreira, com veemente patrocínio de Steve Spielberg, admirador de todas as horas. É o nome de ponta na santíssima trindade do cinema polonês a partir dos anos 1950, o mais influente, ao lado de Jerzy Kawalerowicz ("Faraó") e Wojciech Has ("O Manuscrito de Zaragoza"). Depois viria a geração da nova onda polonesa, liderada por Roman Polanski e Jerzy Skolimowski, que logo deixaram o país por razões ideológicas. Mas foram influenciados e tutelados por Wajda, que retratou a Polônia do pós-guerra, nihilista e ultranacionalista, com agudo olhar crítico.
Wajda voltou a brilhar nas décadas de 1970 e 80, sempre com coração e mente voltados para a complexa e dramática história da Polônia. Entre seus clássicos mais estimados estão "O Homem de Mármore", de 1977, crítica devastadora ao stalinismo na Polônia, e "O Homem de Ferro" (81), narrando as greves daquele período nos estaleiros de Gdansk e a luta pelos sindicatos livres. Com estes dois filmes, Wajda renovou seus votos com o cinema de autor da época e assegurou o compromisso social acima do risco artístico. São também deste período algumas bem-sucedidas experiências internacionais, como "Danton" (82), com Gerard Depardieu, "Um Amor na Alemanha"(83), com Hanna Schygulla, e "Os Possessos" (88), com Isabelle Huppert, segundo a novela de Dostoievski. Andrzej Wajda é o exemplo perfeito do artista total (foi também pintor e homem de teatro), com ampla formação intelectual, de educado sentido estético e sempre empenhado em fazer do cinema um veículo de discussão de ideias. Já nos tempos da Polônia livre, depois da queda do muro, Wajda seria senador da República entre 1989 e 91, e no cinema retornaria ao tema do sindicato Solidariedade com seu apaixonante "Walesa a esperança de um povo" (2013), sobre o líder operário Lech Walesa.
O melhor do cinema de Wajda teve bom espaço em Londrina nos anos 1980, quando o saudoso Cine Ouro Verde exibiu em suas históricas sessões de meia-noite o díptico "Homem de Ferro" e "Homem de Mármore". Também foi apresentado naquela época "Danton", um dos melhores filmes sobre a Revolução Francesa e que permite leituras contemporâneas em tempos de traições, golpes e contragolpes. Foi precisamente Spielberg, o maior avalista do Oscar honorário entregue por Jane Fonda a Wajda em 2000, que faria o melhor elogio ao cineasta polonês: "O exemplo de Andrzej Wajda nos faz lembrar, a todos nós cineastas, que, de vez em quando a História pode reclamar profundas tomadas de posição nossas, que nosso público pode pedir a nós animo espiritual; que podemos ser solicitados a arriscar nossas carreiras para a vida civil de nosso povo."


