Frances McDormand encarna, com todo seu repertório de hilária e desesperançada dramaturgia, a mãe inconformada com a inépcia da polícia, que não resolve o estupro e assassinato da filha
Frances McDormand encarna, com todo seu repertório de hilária e desesperançada dramaturgia, a mãe inconformada com a inépcia da polícia, que não resolve o estupro e assassinato da filha | Foto: Divulgação



Há cerca de seis anos, passava despercebido na programação local (escondido numa das salas do Royal Plaza, especialista em escamotear títulos interessantes) um filme que se revelaria tão peculiar quanto prazeroso: "Sete Psicopatas e um Shih-Tzu", comédia negra escrita e dirigida por um certo Martin McDonagh. O diretor já havia estreado em 2008 com outra pérola – seus argumentos são sempre em torno de violência temperada com humor –, "Na Mira do Chefe", mais uma deliciosa crônica criminal. Pois ele voltou, e veio para fazer estragos nas premiações da temporada: seu terceiro longa, que estreia nesta quinta-feira (22) em Londrina, já levou quatro Globos de Ouro, cinco BAFTA , três SAGA Awards e daqui a dez dias concorre a sete Oscar.
Entre os nove nominados de 2018, só não vi ainda "Trama Fantasma", de Paul Thomas Anderson. Mas por mais que admire e respeite o diretor de "Sangue Negro", "The Master" e "Boogie Nights", este "Três Anúncios para um Crime" chega para comprovar o talento que este inglês já vinha demonstrando para subverter as expectativas do espectador, criando personagens insanamente empáticos/engraçados/peculiares e escrevendo diálogos de fazer inveja a Tarantino.
O universo e os personagens da trama são fascinantes. Eles respondem a certa tipologia enraizada no sul dos Estados Unidos. Os seres que habitam esta história com forte influencia dos irmãos Coen são geradores de muita curiosidade e estranha forma de empatia. McDonagh mostra-se talentoso o bastante para aproximar o espectador, inclusive afetivamente, de alguns seres que normalmente seriam desprezíveis, seja por suas personalidades, seus comentários raciais ou políticos ou ainda por outros detalhes.
Sempre trafegando em zona cinzenta, o filme se recusa sempre a ser o que parece que é.
Logo de saída fica bem claro que a narrativa será construída à base de matizes e contradições permanentes. Frances McDormand (Oscar na lareira...) encarna, com todo seu repertório de hilária e desesperançada dramaturgia, a mãe inconformada com a inépcia da polícia, que não resolve o estupro e assassinato da filha, ocorrido há nove meses. Decide então comprar o espaço de três outdoors em estrada meio abandonada para fazer ali seu protesto contra a inoperância da lei.
O principal atingido é o xerife da pequena cidade de Ebbing (Woody Harrelson), no momento portador de câncer terminal. Ele se explica, dizendo que não há pistas do assassino. A mulher, tão sofrida quanto enojada, não dá o braço a torcer e mantém os outdoors para forçar a investigação. A situação foge ao controle, o caos se instala, surgem novas revelações, fatos violentos, mortes, e a agitação toma conta da comunidade em combustão, que se agita como nunca antes em meio à raiva, à vingança e à necessidade de catarse.
Ótimo é acompanhar a construção do desenho psicológico dos personagens e como McDonagh evita o retrato maniqueísta, plano, em um cenário coral de grande competência, embora se destaquem duas referências: a Mildred de Frances McDormand e o policial Dixon (Sam Rockwel). É o confronto entre um anti-herói (no caso uma mãe coragem heroína) e um anti-vilão de enorme eficácia: torpe, racista, violento...mas simpático em busca de uma possível redenção, porém jamais simplista ou moralista.
A trama inclui um repertório sempre surpreendente de tipologia humana, e a narrativa está sempre disposta a surpreender especialmente pelo humor de ótimo timing, que parece não se importar nem um pouco com a direção que a história tomou nos últimos cinco minutos. Pois cada situação potencialmente crispada ou violenta, dramática ou emocional, será seguida por um gag ou uma resposta cômica. Aspereza, sangue e risos, quase em uníssono.
Se há influências, estas são dos Coen, como já dito; mas o universo é próprio das novelas de Elmore Leonard e ou do velho Jim Thompson, temperado pelo niilismo do toque irlandês de McDonagh, autor de um roteiro que é uma joia. O filme está escrito com uma precisão e uma sagacidade fora do comum. A descrição e o desenvolvimento dos personagens são extraordinários, e o vaivém entre o trágico e o cômico mostra raro equilíbrio . "Três Anúncios para um Crime" se apoia nas palavras para converter sua minuciosa imersão em uma comunidade tocada pela tragédia em retrato penetrante dos males da América profunda (violência, ignorância, racismo) e do ser humano em queda livre.

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