Uma história feminina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Minha admiração pela poética pictórica do artista estadunidense Edward Hopper é antiga e sempre sólida. Seus óleos, representações realistas da solidão nesses tempos contemporâneos, sempre exerceram sobre mim fascínio indescritível, espécie de nostálgica melancolia. Assistindo "A Garota do Trem" (uma das poucas estreias de hoje na cidade), uma das conclusões foi justamente a de que o filme poderia ter sido um sólido melodrama com marcada inspiração da atmosfera de Hopper, já que no longa-metragem dirigido por Tate Taylor estão presentes as casas da suburbia, abrigando famílias classe media em espaços abertos, como perdidas do resto do mundo. Quem observa diariamente essa paisagem é uma mulher que, da janela do trem, olha o que ocorre nessas casas. Isto, precisamente, é um dos grandes temas da pintura de Hopper.
Em "A Garota do Trem", adaptação do best-seller homônimo da inglesa Paula Hawkins alguém chamou de "o fenômeno editorial do século" , a principal das três protagonistas é Rachel (Emily Blunt), mulher recém divorciada, deprimida e frustrada pela impossibilidade de ser mãe e semi náufraga em álcool. Todas as manhãs ela pega o mesmo trem para ir trabalhar em Nova York, e todos os dias o trem passa em frente à sua antiga casa. Onde, aliás, vive o ex-marido (Justin Therroux), sua nova mulher, Anna (Rebecca Ferguson) e o bebê recém-nascido. Para não cair em desespero total, Rachel decide observar outro casal, Megan (Haley Bennet ) e Scott Hipwell (Luke Evans), que mora numa casa próxima aquela que foi dela. Ela cria em sua cabeça um cenário idílico para eles. Mas então, certo dia, quando o trem passa, ela vê alguma coisa terrível. No dia seguinte, Rachel acorda com incrível ressaca e ferimentos. Na TV, a notícia: Mega Hipwell está desaparecida. A partir daí, Rachel se envolve no caso para saber não apenas de Megan, mas sobre ela mesma.
Este trem, que a principio é apresentado como um personagem, logo vai perdendo peso e espaço na narrativa, cedendo lugar às verdadeiras protagonistas da trama: três mulheres unidas, sem que saibam, pela maternidade. Uma história feminina dominada pelos personagens de Rachel, Anna e Megan, onde os personagens masculinos surgem como veículos para narrar, mais que uma história passional que ao final se revela, o que de fato representa a maternidade na vida de uma mulher. Rachel deseja ser mãe mas biologicamente não pode; Anna tem um recém-nascido; e Megan não quer nem ouvir falar na possibilidade de engravidar. Mas algo além desse tema vai entrelaçar os destinos das três, e os fatos que virão, aquele algo mais que engloba o mistério oculto é o que sustenta (ou deveria) as irregularidades que vão frustrando as expectativas. O filme resulta, afinal, em um parto com dilatações quase surrealistas.
Após seu promissor início, que fazia antever algo surpreendente e hipnótico, "A Garota no Trem" percorre o caminho inverso de seu modelo mais próximo, o excelente "Garota Exemplar", que o diretor David Fincher transformou em um dos melhores thrillers psicológicos da década. No filme ora em exibição, as coisas vão se esticando, e à medida que se esticam, se esclarecem, mas sem talento. O drama não é turbulento e a pesquisa criminal o desaparecimento de uma garota reorienta a história para outros rumos. Se o diretor Taylor é contido, ele também se mostra pragmático em excesso, e o filme é muito carente de pulsão e intensidade dramática. Perde a capacidade de surpreender. Mais grave: de emocionar. De novo flashbacks abusivos (parece epidemia recente) e alguns diálogos sofríveis, roçando o ridículo.
O que enche os olhos, no entanto, e mantém o filme na classificação de assistível, é
a capacidade camaleônica, física e emocional, de algumas das boas atrizes da atualidade. Ninguém diria, vendo este trio em "A Garota do Trem", que Emily Blunt, Rebecca Ferguson e Haley Bennett protagonizaram , respectivamente, "Sicario" (inédito em Londrina), "Missão Impossível Nação Secreta" e "Sete Homens e Um Destino".


