Jennifer Lawrence: a magnética interpretação para um personagem complexo e difícil
Jennifer Lawrence: a magnética interpretação para um personagem complexo e difícil | Foto: Divulgação



'Operação Red Sparrow', em exibição neste momento em todo o mundo, pode ser considerado, sem maiores dificuldades, uma quase brilhante mostra do cinema de espionagem internacional em sua vertente mais pura e clássica, movimentada e com interessantes alternativas de roteiro em seu terço final. E acima de tudo, com o fascínio extra que pressupõe a magnética interpretação que Jennifer Lawrence obtém de um personagem complexo e difícil. Estrela e atriz (rara combinação hoje na frente das câmeras), ela triunfa quando se coloca na pele da agente fria e sem escrúpulos, até mesmo nos momentos que mostram sua face mais vulnerável e romântica.
Como a Angelina Jolie de "Lara Croft", a Scarlett Johansson em "Lucy", a "Atomica" Charlize Theron e outras celebridades hollywoodianas, coube agora a Jennifer Lawrence ser a espiã implacável, uma heroína de ação, uma mulher de armas. E não poucas bagagens, traduzidas em generosas doses de erotismo e alguns toques de melodrama romântico. E a esta condição, Jennifer chegou pelas mãos de outro Lawrence (Francis, nenhum parentesco), quem a havia dirigido nos três últimos capítulos da saga "Jogos Mortais".
J.Law interpreta Domenika Egórova, bailarina russa de impecável trajetória no Bolshoi que, após grave acidente (?) em cena, não consegue outra opção de sobrevivência principalmente para a mãe doente (Joely Richardson). Ela não resiste ao assédio de seu Tio Vanya (Matthias Schoenaerts) – o argumento sugere um atormentado passado de abusos em família, mas nada que justifique batizar o vilão com o nome do imortal personagem da peça de Tchekov – e entra para um seleto grupo de agentes, os sparrows/pardais do título original. Bela e atraente, Domenika fará da arte de sedução de seu corpo, vendido à mãe Rússia, sua principal arma. Vale dizer, o sexo, usado para seduzir, manipular, enganar e liquidar eventuais inimigos.
O filme, narrado com pulso firme por Francis Lawrence (também realizador da refilmagem de "Eu Sou a Lenda"), remete, com suas inumeráveis reviravoltas, às narrativas de John Le Carré, mas, evidentemente, neste caso potencializado com erotismo e provocação em grau elevado. No jogo de gato e rato que se constrói em 140 minutos de projeção, nada é o que parece. Surpreende, e muito, no filme, o seu ritmo narrativo, absorto, concentrado, compenetrado, como se o que se estivesse contando fosse de enorme importância. Ter relevância até que tem, quando se propõe a fazer uma revisão da guerra fria, quase trinta anos depois de queda do muro de Berlim e da dissolução da URSS – os tempos são outros, diz a instrutora durona vivida por Ramplin: "A guerra fria não acabou, ela apenas mudou suas configurações". E uma delas seria essa Rússia de Putin, como sugere o filme com seu bordel de espiãs. O quadro é sombrio, quase mórbido, a atmosfera é gélida apesar das elevações de temperatura pela via da violência e do sexo, ou de ambas combinadas.
Ainda que múltiplas visitas a Moscou, Londres, Budapeste e Viena possam confundir o espectador em alguns momentos, a habilidade da direção e categoria de um elenco fortalecido por intérpretes de peso, como Charlotte Rampling, Mary-Louise Parker, Jeremy Irons, Ciarán Hinds, Thekla Reuten e Joel Edgerton. Uma ideia interessante e coerente: o filme mostra um cenário em que a femme fatale do filme noir foi absorvida pela engrenagem do Estado e formou um grupo de elite, num vale-tudo
brutal e sórdido. As cenas que mostram o adestramento de Dominika contém uma considerável carga de violência psicológica e alta frequência erótica, com Lawrence mostrando seus atributos físicos de forma generosa (e valente: poucas atrizes em sua posição de prestígio se prestariam a esta exposição). É de fato uma estrela com alma de atriz, ou uma grande atriz transformada em estrela por questão de marketing.

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