Que ninguém duvide: esta é a mais lucrativa temporada de blockbusters dos últimos tempos. E ‘‘Shrek Terceiro’’ é apenas mais um a estourar o box-office mundial depois de ‘‘Piratas do Caribe’’ e ‘‘Homem Aranha’’ – daqui a pouco estarão chegando ‘‘Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado’’ e ‘‘Harry Potter e a Ordem da Fênix’’. Hollywood, claro, ri à toa com os U$ 255 milhões de Shrek 3, somente de 20 de maio até ontem.
E mais que isso, respira e toma fôlego com sobras para arquitetar novas empreitadas milionárias a partir desta bem-sucedida tomada de temperatura do mercado, agora plenamente reaquecido.
Bem, ‘‘Shrek Terceiro’’, entrando hoje em vasta rede exibidora nacional (veja a programação de cinema na página 2), continua engraçado, mas em termos. O time original está todo lá, na versão original com as vozes de Mike Myers, Cameron Diaz, Eddie Murphy, Antonio Banderas, Rupert Everett, Julie Andrews, o apresentador de tevê Larry King (voz de Doris) e a estréia de Justin Timberlake como o jovem Artie, candidato a rei. Com a morte de Bussunda, a voz dublada do personagem-título no Brasil passou a ser a de Mauro Ramos. Neste sentido não houve prejuízo, as coisas ficaram do mesmo tamanho, manteve-se o nível. Então o que teria acontecido?
Uma vez que os hilariantes personagens e as situações politicamente incorretas deixaram de ser novidade já a partir da segunda história, era preciso que, para manter em alta a saga do ogro verde, os realizadores tivessem fortes trunfos como argumento. E contassem, uma vez mais, com o charme desses três mosqueteiros daquele mais ou menos encantado Reino de Muito, Muito Distante – o grandalhão escatológico, o burro e o gato de botas.
Embora esforçado, o trio por si só já não pode fazer muita coisa diante da fragilidade desta história que escorre na tela por 93 minutos, a despertar pouco interesse. O ponto nevrálgico aqui é a iminente paternidade de Shrek, suas duvidas diante das novas responsabilidades e coisas do gênero. E o contraponto nevrálgico do recado é o poder feminino – Fiona & cia como confiável retaguarda e garantia de resistência eficiente diante dos apertos de Shrek & cia às voltas com o Príncipe Charmoso.
São seis roteiristas, e pensando bem é muita gente para pouca coisa. As diferenças entre os sexos se comportam aqui mais como uma dessas sitcoms que infestam os canais televisivos pagos e abertos. A comédia de costumes, neste caso, se limita a registrar o vai e vaivém desnorteado de um tipo nervoso por se tornar pai pela primeira vez e a resistência de uma intrépida quase mãe que deve impedir a qualquer custo o golpe de estado do Príncipe Charmoso.
Excluídas algumas boas seqüências – o pesadelo de Shrek com seus bêbês verdinhos, e estripulias do burro e do gato de botas (Banderas vai ganhar em breve um filme-solo) –, o filme não se mostra interessante em boa parte de sua esticada metragem. Os ‘‘abusos’’ com os clássicos Disney já não empolgam e são repetitivos.
No começo Shrek e Fiona se apaixonaram. Então ele conheceu os pais dela, e foi aceito. Agora eles dão à luz ogrinhos verdes, e começam a ter tempo suficiente para se odiarem mutuamente, talvez no já anunciado quarto episódio da franquia. E será sobre o divórcio, a quinta parte também já prevista? Só o tempo nos dirá, aguardem...

mockup