O CINÉFILO FIEL -

Reflexões no labirinto mental

Novo filme de Charlie Kaufman, em exibição na Netflix, é uma reflexão sobra a masculinidade tóxica e um dos mais estranhos do diretor

Estou simplificando (empobrecendo, cairia melhor), mas pode parecer que eu esteja tentando complicar: imaginem se “Entrando numa Fria” (Meet the Parents), aquela comédia de 2000 com De Niro e Ben Stiller, fosse refilmada (em versão dark e assustadora) por Charlie Kaufman, roteirista de “Quero Ser John Malkovich”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Adaptação”, e também escritor/diretor de “Synecdoche, Nova York” e “Anomalisa”, títulos muito prezados pela cinefilia mais reflexiva e exigente (e arrevesada ou encucada, vá lá...). Assim você teria uma boa ideia do que esperar do livro do canadense Iain Reid, “Estou Pensando em Acabar com Tudo” (“I’m Thinking of Ending Things”), que este ano Kaufman transformou em filme que a Netflix acaba de estrear mundo afora, somente via streaming. Em outras palavras, e tentando achar um atalho (ou não): você realmente não saberá o que esperar, porque os filmes de Kaufman são sempre mais estranhos, sombrios e perturbadores do que você pode supor. E este mais recente pode ser o mais estranho de todos eles.

A visita de um casal de namorados à casa dos país do rapaz é pretexto para um retrato insólito das angústias, desejos e expectativas frustradas que atravessam gerações
A visita de um casal de namorados à casa dos país do rapaz é pretexto para um retrato insólito das angústias, desejos e expectativas frustradas que atravessam gerações | Divulgação
 


Este trabalho de Kaufman pode ser osso duro de roer, fascinante e irritante em doses iguais, opressor e sincero, divertido (às vezes) e solene. Provocante? Isso vai depender da relação de cada espectador com o cinema distante dos modelos narrativos predominantes. Acho que, afinal, o filme não é experimental em sentido estrito, embora suas possibilidades de representação cinematográfica o afastem das leis de causa e efeito do “realismo” como suporte daquilo que é plausível. Ele, filme, reflete sobre como nossa cultura, ressalta nossas preocupações ao questionar a masculinidade tóxica e as fantasias que se recusam ser manipuladas.




Tudo o que Kaufman ensaiou em seus roteiros e filmes anteriores está de volta aqui: uma narrativa ditada do começo ao fim pelo fluxo do pensamentos, baú de memórias e ideias, origem e fim de qualquer elucubração metafisica. A protagonista de “Estou Pensando em Acabar com Tudo” é tanto personagem como conceito, uma corrente de energia e o meio que o transmite. A moça em questão tem vários nomes, mas a sequência do título a designa como “a jovem”, ou Lucy, ou... (a atriz e cantora irlandesa Jessie Buckley). No começo de todas as coisas, ela aguarda a chegada do namorado Jake (Jesse Plemons). O namoro é recente, e o casal sai para uma visita a uma região rural onde moram os pais dele (David Thewlis e Toni Collete). Neva muito. A viagem-visita é para apresentar a moça. Que acha o motivo apressado, inconveniente.

 O tempo vai piorar, e uma nevasca é esperada para a noite. O tempo no carro dura pouco mais de vinte minutos de carro, entre paisagens brancas. Esse primeiro de uma série de atos em uma única locação, elementos teatrais que Kaufman alterna com breves passagens de outra existência paralela. O monólogo da jovem, por vezes sufocante, confunde-se com o diálogo que ela mantém com o companheiro, cruzando temas relacionados com poesia, ciência e filosofia. A profissão dela mudará ao sabor da história que se acompanha: bióloga, poeta, física, garçonete, critica de cinema, gerontóloga, entre outras coisas. Algo semelhante acontece com Jake , embora para chegarmos à essa conclusão o espectador deve esperar pela refeição quando chegarem à casa dos pais.


Tudo aparentemente simples. Mas por ser um filme de Kaufman, nada é como gostariam que fosse. Não que alguém se comporte de maneira ultrajante. Ou ameaçadora. É que as cenas duram mais que o esperado, o diálogo se sobrepõe a monólogos internos, os personagens recitam de cor longos poemas ou mesmo resenhas de filmes. Por momentos, Kaufman tangencia territórios de David Lynch, em especial na última parte (o humor absurdo no desfrute de um sorvete em meio a um torvelinho de neve). O filme constrói um simulacro como representação de ideias e de emoções, de existências reais e imaginadas. “Você pode dizer ou fazer qualquer coisa, mas não pode fingir um pensamento”, é dito em dado momento. Mas a luta interna, cerebral da protagonista parece ir em direção oposta. As portas e janelas de Lucy ou Luisa ou Ivone continuam se abrindo. “A maioria das pessoas são outras pessoas, suas vidas, uma imitação”, escreveu certa vez Oscar Wilde.


Quem esperava um Kaufman com conteúdo mais contido ou austero vai continuar na fila. Este seu último filme aprofunda e amplifica a veia experimental, a audácia narrativa e visual, o tom melancólico e o questionamento existencialista de seu cinema sempre imprevisível e inclassificável. Sua personagem principal (uma escritora, pintora, estudante de física quântica?) , a dona de comoventes pensamentos, pode mudar de nome, de profissão ou de aparência. Assim como rompe com passado, presente e futuro, Kaufman ainda se põe a reescrever a gramática do cinema, e a transgredir os parâmetros do tempo.



A atriz irlandesa Jessie Buckley tem uma interpretação brilhante
A atriz irlandesa Jessie Buckley tem uma interpretação brilhante | Divulgação
 

É motivo de celebração, que um filme com essas dimensões, ambições e exigências chegue a uma plataforma como Netflix (acostumada a adular músculos e esquecer do cérebro). É preciso mesmo celebrar esta viagem intima que uma atriz brilhante, Jessie Buckley, converte em master class de interpretação, impecável neste impiedoso retrato sobre ansiedades, angústias, desejos, expectativas frustradas e idealizações destes tempos. Um filme desconcertante e perturbador, para ver, rever e debater. Pode ser a portas fechadas com você mesmo.

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