Predadores de Hollywood
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

A chamada Meca do Cinema está completando centenário a partir de 1915, quando foram abertos alguns dos primeiros estúdios. Então, esta longa história é também uma longa história de escândalos sexuais. O caso Harvey Weinstein presente nos noticiários por causa de inúmeras denúncias - é só a ponta do iceberg.
Antes dele (atualizando: e agora também do diretor James Toback), muitos são os segredos mais obscuros. E é bom lembrar que a contemporaneidade predadora de Weinstein não é uma anomalia. E o assédio e a intimidação a atrizes, consumados por poderosos da indústria (diretores, produtores e atores), atravessam a história do cinema made in USA. O espesso silêncio e a cumplicidade corporativa de Hollywood desgraçadamente tornaram possível esta situação. Se somente agora um valente grupo de atrizes resolveu tornar pública um cenário torpe, é bom lembrar que esta resposta demorou muito a aparecer. Quase um século. Os abusos sexuais em Hollywood foram sempre um "habito", na grande maioria das vezes encoberto e consolidado entre os chamados poderosos. Vamos colocar no presente: todos sabem, mas poucos se animam a falar.
Mas de volta à pré-história de Hollywood, lá para os idos do cinema mudo. Início da década de 1920. Um dos mais famosos comediantes do período, Roscoe "Fatty" Arbuckle, é pego em flagrante num apartamento de luxo em hotel em São Francisco. Na cama, em agonia, a atriz Virginia Rappe (ironia do destino macabro: rape, estupro em inglês...) consegue, antes de morrer, afirmar que o ator a violentou. Acusado de assassinato, Arbuckle é preso, mas em seguida solto. Nesta mesma década, Chaplin tem contra ele várias acusações de assédio e abuso sexual, construindo uma triste fama paralela a de gênio da comédia.

Já em tempo mais recentes, depois de construir carreira sólida nos Estados Unidos depois de um início profissional não menos instigante na Inglaterra, Alfred Hitchcock deixou marcas profundas em pelo menos uma de suas atrizes, Tippi Hedren. Ela não deixa dúvidas, em suas memórias, que sofreu abusos por parte do cineasta. Ele estava sempre querendo tocá-la e teria tentado beijá-la à força por diversas vezes. Outro nome de peso e referencia obrigatória quando o tema é comportamento inapropriado, para atenuar um pouco o impacto, é o célebre sob todos os aspectos Errol Flynn, ícone das matinês como o intrépido aventureiro nos filmes de capa e espada. Suas aventuras transcenderam as telas: por diversas vezes foi acusado de violador de menores. Promovia orgias e se tornou também famoso pelo apetite sexual insaciável. Quando processado, foi sempre absolvido porque os menores eram desacreditados nos depoimentos.
Em seu livro de memórias, "Child Star", a menina-prodígio Shirley Temple escreveu que um produtor da MGM, conhecido por ter um sofá-casting , abriu a braguilha e mostrou os genitais durante uma primeira reunião para discutirem um projeto de filmagem. Shirley tinha 12 anos. Há alguns anos, a atriz Joan Collins contou que perdeu o papel principal em "Cleópatra" (1963) porque não aceitou ir para a cama com um executivo do estúdio (Fox),que teria lhe garantido ser a rainha do Egito se ela fosse "amável" com ele. Com o não como resposta, a escolhida foi Elizabeth Taylor.

Claro que Marilyn Monroe seria outra vítima frequente da lúxuria hollywoodiana. Em suas memórias, "My Story", ela relatou como era essa Babilônia a 24 assédios por segundo: "Conheci a todos. Você se sentava com eles, ouvia suas mentiras e planos. Hollywood é um bordel sempre lotado." Segundo o escritor Gerald Clarke, que escreveu "Get Happy: A Vida de Judy Garland", a atriz e cantora (notável, entre outros, por "O Mágico de Oz"), foi assediada sexualmente por muitos homens poderosos da indústria, incluindo o chefão da MGM, Louis B. Mayer.
Há muitos casos comprovados de abusadores, como Roman Polanski, Rob Lowe e Charlie Sheen, considerado um herdeiro de Errol Flynn nas rapinagens sexuais. E há as acusações de pedofilia, não provadas, que pesam sobre Woody Allen, que teria abusado de Dylan, sua filha adotiva. Farrow decidiu encerrar o processo.
Os casos Weinstein e Toback infelizmente não devem encerrar este roteiro protagonizado por serial assediadores. Com certeza esta é uma fila que deve andar com certa celeridade, já que vítimas estão se multiplicando a cada dia, animadas com a perspectiva de que, num futuro próximo, os ventos mudem e a rapina sexual deixe de ser condição primeira para o casting de produções de cinema. Aí o talento, e só o talento, vai contar para colocar os nomes nas marquises.


