'Planeta dos Macacos', 50 anos depois
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de agosto de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Em 1968, o diretor Franklin Schaffner e a Fox deram de presente à posteridade cinematográfica a obra prima definitiva sobre um possível confronto entre macacos e humanos, entre nós e nossas origens, entre violência e irracionalidade: "O Planeta dos Macacos", baseado em clássico da ficção científica literária do francês Pierre Boulle.
O escritor, falecido em 1994, foi o verdadeiro responsável pela febre símia que assolou os Estados Unidos a partir do final da década de 1960. O escritor já havia escrito antes o material literário que deu origem a outro clássico do cinema : "A Ponte do Rio Kwai". Nada a ver aqui com FC aliás , Boulle como escritor de gênero sempre se ateve bem mais à ficção do que à ciência: isto é, não se preocupou com dados científicos, mas sim em abordar questões antropológicas, como sua invenção de colocar símios no lugar de homens. Antes do macaco, e este é um outro aliás, Aldous Huxley já estava certo em "O Macaco e a Essência". Mas esta é outra história.
Naquele filme seminal de toda esta saga simiesca, que as plateias das ultimas quatro décadas desconhecem (é bem possível que caiba aqui um "solenemente"), uma nave espacial se aproxima de um planeta muito semelhante à Terra. A nave mãe fica em órbita, mas uma nave menor se acidenta no momento da aproximação. Os tripulantes logo descobrem que os humanos que lá existem são escravizados por chimpanzés belicosos e orangotangos cientistas, tão desenvolvidos e hippies como pensávamos que éramos justamente naquela década iconográfica, a dos 60. O recém-chegado astronauta George Taylor (Charlton Heston) é capturado pelos macacos e levado como cobaia para pesquisas científicas. A chimpanzé Zira descobre que ele é "pensante". Ela então tenta convencer seu chefe, Zaius, que o humano é inteligente. Mas Zaius, invertendo os papeis de nossa "superioridade", acredita que George apenas é um bom imitador da fala dos macacos... Zira e seu namorado, Cornelius, tentam um plano pra revelar ao mundo que George é homem de outro planeta onde a lógica é inversa e os humanos são os dominantes.

Por esta descrição, é fácil ver que toda a franquia a partir da matriz "O Planeta dos Macacos" (com exceção do disparate assinado em 2001 por Tim Burton) pinçou aqui e ali elementos do livro de Boulle. O filme de 68 é imbatível, mesmo mostrando uma sociedade símia muito primitiva. Mas é o mais próximo do livro. Em dado momento da narrativa, o espectador descobre juntamente com os cientistas-macacos que aquela sociedade símia passou por um período de estagnação cientifica, algo como a nossa Idade Média. Só que por 10 mil anos. Desse período, reina o silêncio. Cornelius desconfia que há algo de muito errado quando descobre que uma boneca humana de porcelana fala "papa". O final então é aterrador: George, Zira e Cornelius, em fuga, descobrem, ao ver na praia as ruínas de uma civilização de onde desponta apenas a cabeça de uma Estátua da Liberdade enterrada, que os homens dominavam aquele planeta antes dos símios e, por alguma razão (precisa dizer ?) involuíram ao ponto dos símios se tornarem os seres dominantes.
O final acima, igual até certo ponto ao do péssimo filme de 2001, de Tim Burton, deixa o espectador coçando a cabeça, mas poderia ser explicado pela evolução dos símios do futuro ao longo de mais centenas e centenas de anos, eles dominarem então a viagem interplanetária e a viagem no tempo, voltarem para milênios antes para a Terra, na aurora do tempo, e dominado nosso planeta desde o começo. O filme não explica (ah, este cinema maravilhoso que nos convida a viajar !), só deixa para a especulação. Me lembro bem de quando saí do cinema, criando na cabeça esta versão para o que o filme queria dizer. Só não me lembro bem se vi "Planeta dos Macacos" antes ou depois de "2001 Uma Odisséia no Espaço". E essa não é uma outra história...
Escrevo essas impressões ao ver nas telas este filme que encerra outra trilogia, aquela iniciada em 2011 (mas há material para ainda mais imagens, segundo anunciam os intrigantes de plantão sobre símios e humanos em guerra). É curioso e sempre assustador como Hollywood insiste em achar que o militarizado destempero da cúpula da humanidade pode ser resolvido na sala escura do cinema. E nem é mais uma questão de saber se somos animais com ou sem rabo.


