Javier Bardem é ótimo Salazar, mas corre o risco de ficar estereotipado como vilão de luxo
Javier Bardem é ótimo Salazar, mas corre o risco de ficar estereotipado como vilão de luxo | Foto: Reprodução



Não fui a Cannes este ano, mas de tudo que vi, li e ouvi, nenhuma dúvida. O tema que não quis calar, do início ao fim, foi mesmo o embate entre sala de cinema e sala de estar (tout compris com pcs, laptops, celulares e o que mais reproduzir imagens de filmes e séries). Experimentem encaixotar a imponência espetacular de "Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar" num formato netflix da vida, tipo até 100 polegadas num home theatre. E experimentem no cinema a tecnologia para o qual foi concebido (dolby última geração, 3D, Imax ou seja lá a parafernália disponível), e para a qual os exibidores vêm se equipando com notável e natural persistência. A resposta é óbvia, e é aquela do bom senso: primeiro, o escuro do cinema; depois, e só depois de esgotado o fôlego das bilheterias, o trânsito nas alternativas da preguiçosa comodidade doméstica.
Que ninguém duvide: o mar, como primeiro provou a literatura, sempre foi ligado à aventura. E neste cenário, o navio e sua tripulação foram o complemento essencial. Mesmo que não houvesse mais embarcações à vela (especialmente o galeão, este da pirataria entre os séculos 16 e 18) quando o cinema nasceu, há 122 anos, a ficção cinematográfica sempre deu preferência a este imponente símbolo da guerra nos mares, dos motins e da caça aos tesouros. Foi em torno do fascínio do grande público que surgiu o subgênero "filme de piratas", que investiu na fantasia (via literária) deixando de lado o rigor histórico. É bom lembrar que este personagem, o pirata, embora ladrão e marginal, sempre foi idealizado pelo cinema como símbolo de bravura, independência, boa vida, imagem ligada ao consumo do rum e a um amor em cada porto. Do Caribe, preferencialmente, e com a cara dos maiores, mais viris e carismáticos astros (nem sempre grandes atores...) hollywoodianos.
Mas a variante de lutar por uma causa "honrosa" não foi desprezada, e a vítima habitual foi o poder naval da Inglaterra, dona dos mares, poder tido e havido como imbatível, e por isso vilanizado. Invertiam-se os papéis: o bom pirata, proscrito mas de nobres sentimentos, versus a tirânica armada inglesa. E o grande público, claro, torcendo pela pirataria. Os bons, entre outros, eram Sandokan, o capitão Blood (Errol Flynn, o bonitão da época, décadas de 1930, 40 e 50, quando foram realizados pelo menos 20 títulos do subgênero) e o capitão William Kid, que virou seriado no cinema nos anos 50. Outros atores míticos que se meteram em trajes de piratas foram Clark Gable, Tyrone Power, Charles Laughton, Anthony Quinn, John Payne e Burt Lancaster, que soube aproveitar seu talento circense (era exímio trapezista) numa pirataria mais light, "O Pirata Sangrento".
Entre este fértil período, e até chegar à franquia Piratas do Caribe, mais recentemente surgiram algumas produções curiosas, como o "Piratas" de Roman Polanski e o "Hook" de Spielberg . Mas vamos ao que está em pauta, esta "Vingança de Salazar", ou mais fantasmas que piratas.
Após alguns anos de pausa, havia certa esperança de que as novas peripécias de Jack Sparrow recuperassem a frescura de "A Maldição do Pérola Negra" (de suas duas sequelas deve-se falar pouco...), e da quarta me lembro do tédio. Quanto à "Salazar"...Bem, a trama, que não é grande coisa, nos mostra um capitão espanhol e sua tripulação vitimados por uma maldição em parte provocada por um muito jovem capitão Sparrow. Tempos depois, um enfurecido Salazar se prepara para acabar com a pessoa que o transformou em espectro. Neste fuga, Sparrow terá novas companhias.
O filme oferece momentos pontuais de diversão, mas tropeça em algo que foi fatal à franquia: a história. Fraquinha, a ponto de obrigar (?) os roteiristas a complicar seu desdobramento com referências ao passado de Sparrow e de Salazar. Assim mesmo , são agregadas referências familiares que ligam este filme com a trilogia original. Como ação, o roubo do banco é a única de fato eficiente como timing, e curiosamente a única absolutamente seca. As demais, em alto mar, em vez de resultar assombrosas, tornam-se até confusas muito em função da ambientação escura.
O humor somente funciona quando se torna slapstick, com elementos físicos, como na sequência da guilhotina. E os excessos etílicos-verbais de Sparrow já andam debilitando a paciência do espectador. É de se supor que a culpa cabe aqui ao roteirista Jeff Nathanson, capaz do melhor ("Prenda-me se For Capaz") e do pior ("A Hora do Rush 2 e 3"). Não faltam as participações especiais forçadas, como as de Orlando Bloom e Keira Knightley – outros personagens da trilogia original mereciam mais tempo em cena, até para fechar melhor seus relatos. Quanto ao elenco: Depp é repetitivo, com seus tics a esta altura sem novidades. Javier Bardem é ótimo Salazar, mas corre o risco de ficar estereotipado como vilão de luxo. Os efeitos especiais sobre ele são espetaculares, especialmente quanto à cabeleira espectral. Geoffrey Rush é sempre um Barbossa bem vindo, e aqui cheio de revelações. A dupla jovem, Brenton Thwaites e Kaya Scodelario são acertos a festejar.

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