'Pets' faz aquilo que "A Bruxa de Blair 2" não cumpre
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Não teve pra ninguém, pela quarta semana consecutiva, e a animação "Pets A Vida Secreta dos Bichos" fez aquilo que o blefe da "A Bruxa de Blair 2" prometeu e não cumpriu: ignorando o período letivo normal, assombrou as bilheterias brasileiras e por isso vai ficar, com inegáveis méritos, pelo menos mais esta semana no circuito nacional. E uma rápida consulta ao Box Office Mojo (www.boxofficemojo.com) - site de estatísticas da Amazon que monitora diariamente o resultado das bilheterias de toda a produção estreada nos Estados Unidos - garante que os pets arrepiaram as cifras desde sua estreia estadunidense (início de julho), só perdendo até agora para lançamentos como "Procurando Dory" e "Capitão América Guerra Civil".
Bichos sempre foram uma de minhas praias de eleição. Coisa doméstica mesmo, herança familiar, gato, cachorro, coelho, tartaruga, papagaio, passarinho, fauna alegre de animado e sonoro quintal infantil que quase não existe mais por aí, ou se existe está aprisionado pela vida moderna em áreas penduradas, quase do tamanho de uma gaiola. O interesse pelo filme, portanto, não era só por dever de ofício nem sempre recompensado (às vezes muito pelo contrário), mas também movido pelo prazer já a priori desconfiado, mas não cem por cento assegurado. A limitada premissa do marketing o que nossos bichos de estimação fazem em casa quando não estamos presentes acenava com uma história preguiçosa, nada original (a ideia tem tudo a dever a "Toy Story") e possivelmente aborrecida, já que não é dos selos Pixar ou Dreamworks.
Agradabilíssima surpresa: "Pets" supera com extrema folga e conforto esses temores. E consegue a façanha sem a necessidade de transformar o filme em algo confuso ou pretensioso, manejando sempre corretamente os recursos da comédia. Com eventuais e bem vindas extravagâncias que apimentam a narrativa na medida. Nenhuma dúvida de que não se trata de um clássico instantâneo do gênero, mas é com certeza um produto generoso e divertido. O argumento de "Pets" se desenrola, claro, num universo de animais domésticos. O ponto de partida é o cãozinho Max, que vive em Nova York uma relação idílica com sua dona, uma jovem que tem um fraco por resgatar animais sem teto. As coisas se complicam quando Max é obrigado a conviver e a dividir tudo (com prejuízos para ele) com o novo adotado do apartamento, o enorme, peludo e abusado Duque.
Mas a crescente luta pelo poder entre ambos ficará em segundo plano quando eles são capturados na rua como dois cães vadios, depois de humilhante refrega com um bando de gatos vagabundos que somem com a identidade (as coleiras) da dupla. O restante de seus amigos que habitam o mesmo prédio (cães, gatos e pássaros ) promovem então uma busca atrás de Max e Duque, a esta altura metidos muito a contragosto nos sombrios, fétidos e ultra perigosos subterrâneos da cidade. Esta região, espécie de Faixa de Gaza localizada no underground nova-iorquino, é dominada por sobreviventes da crueldade humana, animais abandonados por seus donos e que agora querem vingança exatamente sobre quem? Os pets lindos, limpos e bem alimentados. O chefe deste bando que lembra os párias do submundo de Mad Max (como muito bem lembrou um atento espectador) é o muito malvado coelhinho Snowball, de aparência cândida mas capaz das piores atitudes aquele vilão que amamos odiar.
"Pets" aposta todas suas fichas na ação, no movimento, em dinamismo, no humor físico e na criatividade, no caso dar vida animada e muito engraçada às lendas urbanas da megalópole uma invisível fauna variada a qual não faltam crocodilos, tartarugas, lagartos e serpentes. Não há, portanto, muito espaço para aprofundar personagens e nem trabalhar conflitos muito elaborados. Tudo é básico e eficaz para o público infantil, mas os adultos com certeza estão adorando pegar carona nesta esfuziante under the road com animais simpáticos, cores fortes e um ritmo que nunca deixa de oferecer estímulos para uma boa vertigem. Quem dirige é Cris Renaud, conhecido por tornar famosos os Minions estes personagens, aliás, estão no curta metragem que antecede "Pets", e começam a dar mostras de saturação.


