Parábola atemporal sobre os fascismos
'Em Trânsito', em cartaz em Londrina, discute conflito de guerra através de um grande amor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de julho de 2019
'Em Trânsito', em cartaz em Londrina, discute conflito de guerra através de um grande amor
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
O diretor Christian Petzsold, uma das vozes mais pessoais do atual cinema alemão, depois de exercícios realistas sobre as duas antigas Alemanhas (o mais interessante deles , “Barbara”, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi lançado no Brasil em 2012 mas é inédito em Londrina), nos oferece agora seu filme mais recente, “Em Trânsito” (2018), obra com instigante visão sobre um dos temas esquecidos por todos aqueles que falam sobre a Segunda Guerra Mundial.
Trata-se de uma parábola atemporal em torno dos fascismos. Para contar isto, o diretor propõe um filme sobre a relatividade do tempo, que trabalha, substancial e curiosamente, com determinados clichês. Em lançamento a partir desta quinta (11), no circuito local.
Sua história transcorre em um lugar indeterminado de Marselha, ao longo de várias décadas. Em seu contexto histórico imaginário aparece a ocupação alemã e a necessidade de alguns cidadãos alemães de fugir do continente de barco. Um deles é Goerge (Franz Rogowski). Marselha é o lugar para onde George vai atrás de um visto, e onde muitos outros indivíduos como ele aguardam a mesma coisa, sem outro propósito.

Seu caminho se cruza com o de um escritor suicida, com sua mãe e sobretudo com Marie (Paula Beer), a mulher do tal escritor, que está à procura do marido sem saber de sua morte. Georg, que havia decidido tomar a identidade do escritor morto, vai se envolver em problemas por causa dessa transformação, inclusive por se apaixonar por Marie.
O herói se transforma numa espécie daquele Bogart de “Casablanca”, por amor e por uma inesperada convicção política. É muito interessante observar como o imenso conflito da guerra pode ser, com estilo e delicadeza, reduzido a uma história de amor entre duas pessoas que, desesperadas, buscam construir um vínculo que os conecte com algo parecido a um lar.
Georg e Marie, cada um empreendendo buscas diferentes , se encontram em meio ao caos, à pobreza e ao desespero, e conseguem estabelecer uma conexão que vai mais além das palavras, uma química que se percebe na tela sem que o roteiro se torne sobre explicativo . Neste sentido, é fundamental a performance do ator Franz Rogowski, que compõe um personagem sofrido absolutamente verdadeiro, trabalhado desde a sutileza e não a partir do excessivo discurso oral ou gestual. Mas há outras filigranas que fazem de “Em Trânsito” um filme sem dúvida inclassificável. Mas bem poderia ser renomeado como “o amor nos tempos dos sistemas opressivos”.
Petzold, ao recriar o tempo da invasão nazista na França, o faz como vintage, mas acrescenta uma reviravolta que força o espectador a encarar um material que o leva a repensar o tempo todo o que está sendo visto na tela. O que se vê é uma espécie de teia de imagens que reflete o ontem e o hoje num continente desesperado, oprimido pela fome e pela angústia. Sem que isto signifique golpe baixo.
Nenhuma dúvida: há vínculos entre aquela Europa à deriva, mergulhada no medo, na queda de valores morais, no antissemitismo, e a Europa das preocupações atuais, intolerante e autossuficiente


