Os nomes do amor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Outro destaque francês na série de dramas e comédias românticas que o Cine Com-Tour programou para as próximas semanas. Na realidade, são títulos sobreviventes no suporte em película 35mm, que a sala da UEL ainda mantém em exibição. São os últimos moicanos nessa bitola em celuloide, praticamente o que restou no panorama atual totalmente digitalizado.
Inédito na cidade, este "Le Nom des Gens" é comédia romântica que herdou os encantos e os romances impossíveis da comédia screwball hollywoodiana - um subgênero de comédia muito popular em seu tempo, tramas que iam em várias direções e que davam origem a situações inesperadas. O filme fala sobre as origens e a tolerância étnica. É comicidade inteligente, engenhosa e aguda, apenas perdendo um pouco o fôlego por conta de certa reiteração do roteiro e pela crítica social, que começa feroz e se acomoda, não chegando às últimas consequências.
Em ocasiões, os extremos se tocam e os polos opostos se atraem. Pelo menos é o que se deduz da história de Arthur e Baya, tão diferentes e tão iguais na maneira de ver a vida. Ele é um solteirão que trabalha como perito em doenças de animais. Leva uma existência anódina de poucas relações. Ela é uma jovem iconoclasta e desinibida que se serve do sexo para fazer guerra contra os fascistas. Mas aqui terminam as diferenças entre os dois protagonistas da história, porque ambos escondem dolorosos segredos da infância, e os dois deverão superar tabus que dificultam sua busca da felicidade. Assim, o diretor oferece ao espectador uma história de amor e de amadurecimento pessoal, alimentada sobre um terreno racista no qual se levanta a bandeira da tolerância e a favor do socialismo francês.

O filme abre em ritmo vertiginoso, com estes dois indivíduos tão antagônicos quanto esquemáticos. Melhor dizendo, o diretor lhes dá a palavra para que eles mesmos nos digam quem eram seus pais, que educação receberam e quais foram as circunstâncias que marcaram sua juventude. Este preambulo é tratado com diferentes qualidades fotográficas, e Leclerc dá mostras de um humor naif mas corrosivo, irônico, que zomba do politicamente correto. Ele sabe como apontar e disparar seus dardos contra a mentalidade francesa narcisista e victimista.
O filme nos diz que todos os nomes têm sua história e sua dignidade, que nada é mais valioso e original do que chamar-se de uma ou outra maneira. Porque, debaixo das aparências e dos silêncios, em todos se esconde sempre algum fato de que não há porque se envergonhar, e também uma capacidade amar que não porque ocultar. Em sua luta contra tabus e atitudes racistas, insiste na necessidade de não esquecer o passado nem encobrir a verdade de cada um, mas também a necessidade em dizer a cada um que se deve dizer a título de reconforto como faz Baya com a mãe de Arttur ou este com o pai dela.
As interpretações são insuperáveis pela espontaneidade de Jacques Gamblin e Sara Forestier. Ótima fotografia e ágil montagem a serviço também de um discurso que acaba convencendo que as vidas de Arthur e Baya não são tão diferentes, e de que as de todas as pessoas respondem aos nomes do amor.


