A direção de arte, eficiente e bela, consegue recriar toda a minúcia dos anos 1960
A direção de arte, eficiente e bela, consegue recriar toda a minúcia dos anos 1960 | Foto: Divulgação



Neste momento em que estreia no Brasil, "Estrelas Além do Tempo" está ultrapassando a casa dos 100 milhões de dólares de bilheteria no mercado global, impulsionado por três nominações ao Oscar (filme, atriz e roteiro adaptado). E para espanto generalizado, o exibidor local, ainda que timidamente, começa a partir de hoje a repor os títulos que competem às estatuetas de 2017. Alguns deles ("Moonlight – Sob a Luz do Luar", "Manchester À Beira Mar", "Fences/Um Limite Entre Nós" e "Lion: Uma Jornada para Casa") talvez apareçam nas salas locais na última semana do mês, véspera da cerimônia de premiação. Antes tarde, embora já nem tão inéditos assim.

A ação de "Hidden Figures" (o ótimo título original foi traduzido de perto na maioria dos países onde está sendo exibido, mais ou menos como um funcional "Talentos Ocultos") começa no início dos anos 1960, quando Estados Unidos e Rússia levam a guerra fria ao espaço sideral, tentando colocar seus homens a caminho das galáxias. O momento é traduzido através de três mulheres negras que trabalham na NASA: Katharine Goble (Taraji P. Henson), uma viúva com prodigiosa habilidade para a Geometria; Dorothy Vaughan (Octavia Spencer, candidata a melhor coadjuvante), figura maternal que batalha pelo cargo de supervisora, e Mary Jackson (Janelle Monae), altiva e potencial engenheira espacial desde que consiga uma vaga na universidade branca da Virginia. As três são verdadeiros computadores – é também o momento da novidade-gerinconça IBM – e fazem parte de três dezenas de mulheres afro-americanas contratadas para executar cálculos: são as tais hidden figures, ou figuras escondidas.

O título não é formulado como insulto. O escritório onde elas trabalham tem uma inscrição que as identifica como tais. Seus chefes não as chamam pelo nome. A desumanização está institucionalizada inclusive na agência que reúne as mentes mais brilhantes. A reconstrução dessas histórias de vida (como em "Até o Último Homem", também em exibição na cidade) é o eixo desse filme muito correto e extremamente simpático ao (sem qualquer conotação pejorativa, pode-se definir o filme como um sólido telefilme) e eficaz em seus objetivos, o principal deles a autoafirmação da comunidade afro-americana com uma fábula tão inspiradora quanto motivacional, e ainda, com ares desses tempos, com um toque feminista, já flertando com o corrente "empoderamento" de gênero (as aspas são quanto ao neologismo, unicamente). E ainda sem descuidar da questão patriótica – as protagonistas, heroínas surgidas da classe trabalhadora, terminam ajudando o desenvolvimento tecnológico e o triunfo de seu país.

Três dezenas de mulheres afro-americanas são contratadas para executar cálculos: são as hidden figures (figuras escondidas)
Três dezenas de mulheres afro-americanas são contratadas para executar cálculos: são as hidden figures (figuras escondidas) | Foto: Divulgação



O diretor Theodor Melfi - cujo único antecedente era o também simpático "Um Santo Vizinho", com Bill Murray - maneja o filme com um tom quase histriônico (suas ótimas atrizes o ajudam na tarefa), uma aposta visual exuberante e um olhar algo inocente, em que pese abordar temas densos como machismo e discriminação racial. No fundo, a bem vinda leveza assegura ao filme encanto e fluidez que permitem a ele alguns lugares comuns, alguma superficialidade, certa condescendência e uma descrição bastante elementar dos conflitos familiares e íntimos do trio de protagonistas.

Entre as virtudes a considerar está uma direção de arte tão eficiente quanto bela, que consegue recriar, através de decoração e do vestuário, toda a minúcia dos anos 1960. Marcante a trilha musical com canções de Pharrell Williams. Mas ao final fica a dúvida, quase demasiado óbvia, se o filme não foi também pensado para cobrir a cota afro-americana desta edição do Oscar, visivelmente blackish se comparada a 2016.

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