Para falar de "O Estranho que Nós Amamos", em exibição na cidade, podemos partir de uma base razoável. Em linhas gerais, há dois tipos de remakes ou refilmagens no cinema: aquelas que se limitam a repetir os aspectos mais notáveis da obra original e aquelas que se constroem a partir deles. É óbvio que a segunda categoria resulta muito mais interessante e valiosa (isto já foi demonstrado por Brian De Palma, John Carpenter, David Cronenberg, Martin Scorsese e Werner Herzog, entre outros). E a primeira, uma operação comercial que, com sorte, pode não causar vergonha alheia.

E onde podemos situar "O Estranho que Nós Amamos" de Sofia Coppola diante do filme homônimo de Don(ald) Siegel , de 1971 ?
A rigor, a versão Sofia não traz nada de novidade, nenhuma contribuição para se sobressair num cotejo direto com Siegel. O que faz é misturar véus e rendas e suores para tentar criar aquela tensão, aquela suada sensualidade que transpirava em cada frame da versão anterior, como Clint Eastwood como o soldado ferido e capturado num internato feminino. Sofia Coppola oferece um olhar muito mais vaporoso e esterilizado da mesma história, sem novidades que deixem notar rasgos de talento da diretora além da escolha do elenco feminino e detalhes superficiais.

Aqui é Colin Farrell o soldado ferido que acaba nas mãos de Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e companhia. A perigosa desestabilização hormonal que abala esta comunidade feminina, isolada durante a Guerra da Secessão, constitui o melhor momento da sempre elegante e fluida condução de Coppola. Mas fazem muita falta os afiados níveis de perversão obtidos por Siegel com os mesmos materiais. De onde o diretor de "Dirty Harry" obteve uma montanha, Sofia Coppola obteve uma tímida colina.

Foi o crítico Kleber Mendonça Filho, antes de se tornar cineasta e com dois dos filmes mais importantes deste início de século ("Som ao Redor" e "Aquarius"), quem escreveu uma vez que "O Estranho que Nós Amamos" de Siegel podia ser lido como o prólogo de uma história de fantasmas, porque conta o nascimento do espectro que atormentará os habitantes daquele casarão durante séculos. Isto é impossível na versão Coppola. É uma questão de tom, mas também de decisões narrativas que convertem o momento mais climático do filme em um recurso de necessidade cirúrgica sem rastro da ambiguidade sádica que tão bem podia ter expressado uma excelente Nicole Kidman. Por outro lado, o recurso da iluminação natural e da velas fica muito a dever ao trabalho do diretor de fotografia Bruce Surtees em 1971.

"O Estranho..." de 2017 não é nem um remake imaginativo e nem enriquece a história do cinema. Requenta o que já existia, perdendo nutrientes pelo caminho. Mas permite ao espectador desfrutar de um universo em claro-escuro habitado por Kidman, Dunst e Fanning, com tranças e vestidos abotoados. Se deixam-se de lado as comparações com a versão anterior, é certo que o filme de Sofia tem alguns encantos difíceis de esquecer. E é preciso convir que pouca gente viu a produção de Siegel-Eastwood. E que Nicole voltou a reunir méritos para ser novamente considerada uma atriz talentosa.

mockup