O cinema e o remake de Sofia
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quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Para falar de "O Estranho que Nós Amamos", em exibição na cidade, podemos partir de uma base razoável. Em linhas gerais, há dois tipos de remakes ou refilmagens no cinema: aquelas que se limitam a repetir os aspectos mais notáveis da obra original e aquelas que se constroem a partir deles. É óbvio que a segunda categoria resulta muito mais interessante e valiosa (isto já foi demonstrado por Brian De Palma, John Carpenter, David Cronenberg, Martin Scorsese e Werner Herzog, entre outros). E a primeira, uma operação comercial que, com sorte, pode não causar vergonha alheia.
E onde podemos situar "O Estranho que Nós Amamos" de Sofia Coppola diante do filme homônimo de Don(ald) Siegel , de 1971 ?
A rigor, a versão Sofia não traz nada de novidade, nenhuma contribuição para se sobressair num cotejo direto com Siegel. O que faz é misturar véus e rendas e suores para tentar criar aquela tensão, aquela suada sensualidade que transpirava em cada frame da versão anterior, como Clint Eastwood como o soldado ferido e capturado num internato feminino. Sofia Coppola oferece um olhar muito mais vaporoso e esterilizado da mesma história, sem novidades que deixem notar rasgos de talento da diretora além da escolha do elenco feminino e detalhes superficiais.
Aqui é Colin Farrell o soldado ferido que acaba nas mãos de Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning e companhia. A perigosa desestabilização hormonal que abala esta comunidade feminina, isolada durante a Guerra da Secessão, constitui o melhor momento da sempre elegante e fluida condução de Coppola. Mas fazem muita falta os afiados níveis de perversão obtidos por Siegel com os mesmos materiais. De onde o diretor de "Dirty Harry" obteve uma montanha, Sofia Coppola obteve uma tímida colina.
Foi o crítico Kleber Mendonça Filho, antes de se tornar cineasta e com dois dos filmes mais importantes deste início de século ("Som ao Redor" e "Aquarius"), quem escreveu uma vez que "O Estranho que Nós Amamos" de Siegel podia ser lido como o prólogo de uma história de fantasmas, porque conta o nascimento do espectro que atormentará os habitantes daquele casarão durante séculos. Isto é impossível na versão Coppola. É uma questão de tom, mas também de decisões narrativas que convertem o momento mais climático do filme em um recurso de necessidade cirúrgica sem rastro da ambiguidade sádica que tão bem podia ter expressado uma excelente Nicole Kidman. Por outro lado, o recurso da iluminação natural e da velas fica muito a dever ao trabalho do diretor de fotografia Bruce Surtees em 1971.
"O Estranho..." de 2017 não é nem um remake imaginativo e nem enriquece a história do cinema. Requenta o que já existia, perdendo nutrientes pelo caminho. Mas permite ao espectador desfrutar de um universo em claro-escuro habitado por Kidman, Dunst e Fanning, com tranças e vestidos abotoados. Se deixam-se de lado as comparações com a versão anterior, é certo que o filme de Sofia tem alguns encantos difíceis de esquecer. E é preciso convir que pouca gente viu a produção de Siegel-Eastwood. E que Nicole voltou a reunir méritos para ser novamente considerada uma atriz talentosa.


