Filme tem como protagonista um garoto que perde os pais num acidente, sobrevive e se refugia num bosque
Filme tem como protagonista um garoto que perde os pais num acidente, sobrevive e se refugia num bosque | Foto: Fotos: Divulgação



Um dragão pra chamar de meu
E por falar em refilmagens, eis "Meu Amigo o Dragão", que entra em segunda semana. Não é exatamente uma refilmagem. Vamos chamar de adaptação. Esta nova versão da história homônima de 1977 combina ação ao vivo com animação tradicional. Não deixa de ser aposta de risco, e se apresenta como uma fábula tradicional, sensivelmente distanciando-se das vertigens desprovidas de sentido que congestionam o atual cinemão de entretenimento. Portanto, é preciso celebrar este fenômeno: de tempos em tempos, algum caçador da inteligência perdida recupera os sentidos e produz um inesperado prodígio, que chega despido da parafernália hollywoodiana, marqueteira e invasiva. É o caso deste "Pete’s Dragon", segundo filme de David Lowery, nome revelado em Sundance e que trouxe para esta história sua visão "indie" de cinema.
Como é um produto Disney, a trama reúne muitos dos elementos que formam parte do imaginário sobre o qual o histórico mega estúdio edificou sua identidade artística (leia-se marca registrada). Mas por outro lado, o resultado final não está alinhado com esses milionários blockbusters anunciados com meses de antecedência – animações ou aventuras com super-heróis saídos da mesma grife Disney. E como mencionei acima, ser uma aposta de risco corre por conta de algumas características, digamos, anacrônicas.

Trama reúne elementos que fazem parte do imaginário da Disney
Trama reúne elementos que fazem parte do imaginário da Disney



"Meu Amigo o Dragão" tem como protagonista um garoto que perde os pais num acidente de carro. Ele, Pete, sobrevive e se refugia num bosque próximo a uma pequena cidade, onde é salvo dos lobos por um dragão verde, de quem se torna melhor amigo e a quem batiza de Elliot. Um dos poucos que dizem ter visto a criatura é Meacham (Robert Redford), pai da cética Grace (Bryce Dallas Howard), responsável pela segurança do bosque. Mas a moça descrente vai mudar de ideia quando encontrar Pete e seu mitológico (e muito vivo) companheiro, agora alvo de algumas ameaças.
Esteticamente contemporâneo e emoldurado por um espírito sincero, o filme é um achado "vintage" nesses tempos de cinema mal travestido por modismos indigestos. Sua forma e seu tom fazem a diferença, e remetem obrigatoriamente ao espírito spielberguiano. Se apenas a ideia da amizade entre um garoto e uma criatura fantástica, e a maneira como ela, amizade, é resolvida pelo diretor em evidentes termos de "E.T.", o mesmo se pode dizer do personagem de Robert Redford. Como um fascinante Peter Pan enrrugado, seu personagem é o de um avô que é o único adulto da história que permite manter viva dentro de si a magia da infância: "Se vão por toda vida vendo apenas o que aparece diante dos olhos, você perderão um monte de coisas", diz ele a um grupo de garotos depois de contar pela enésima vez a incrível história de um dragão que, ele insiste, vive no tal bosque que é o misterioso quintal da cidadezinha. História na qual ninguém acredita. A não ser as crianças, último refúgio de pureza no qual a fantasia sobrevive.
É certo que a sub trama ambientalista nunca chega a adquirir peso específico no filme. Mas isto é o que menos importa, porque o núcleo do relato está em outra parte, na aposta pela magia e pela recuperação de um tempo narrativo que parece distante, caído em desuso, mas que, diante do filme, ainda tem muito a oferecer.

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