O Cinéfilo Fiel
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de outubro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Um dragão pra chamar de meu
E por falar em refilmagens, eis "Meu Amigo o Dragão", que entra em segunda semana. Não é exatamente uma refilmagem. Vamos chamar de adaptação. Esta nova versão da história homônima de 1977 combina ação ao vivo com animação tradicional. Não deixa de ser aposta de risco, e se apresenta como uma fábula tradicional, sensivelmente distanciando-se das vertigens desprovidas de sentido que congestionam o atual cinemão de entretenimento. Portanto, é preciso celebrar este fenômeno: de tempos em tempos, algum caçador da inteligência perdida recupera os sentidos e produz um inesperado prodígio, que chega despido da parafernália hollywoodiana, marqueteira e invasiva. É o caso deste "Petes Dragon", segundo filme de David Lowery, nome revelado em Sundance e que trouxe para esta história sua visão "indie" de cinema.
Como é um produto Disney, a trama reúne muitos dos elementos que formam parte do imaginário sobre o qual o histórico mega estúdio edificou sua identidade artística (leia-se marca registrada). Mas por outro lado, o resultado final não está alinhado com esses milionários blockbusters anunciados com meses de antecedência animações ou aventuras com super-heróis saídos da mesma grife Disney. E como mencionei acima, ser uma aposta de risco corre por conta de algumas características, digamos, anacrônicas.

"Meu Amigo o Dragão" tem como protagonista um garoto que perde os pais num acidente de carro. Ele, Pete, sobrevive e se refugia num bosque próximo a uma pequena cidade, onde é salvo dos lobos por um dragão verde, de quem se torna melhor amigo e a quem batiza de Elliot. Um dos poucos que dizem ter visto a criatura é Meacham (Robert Redford), pai da cética Grace (Bryce Dallas Howard), responsável pela segurança do bosque. Mas a moça descrente vai mudar de ideia quando encontrar Pete e seu mitológico (e muito vivo) companheiro, agora alvo de algumas ameaças.
Esteticamente contemporâneo e emoldurado por um espírito sincero, o filme é um achado "vintage" nesses tempos de cinema mal travestido por modismos indigestos. Sua forma e seu tom fazem a diferença, e remetem obrigatoriamente ao espírito spielberguiano. Se apenas a ideia da amizade entre um garoto e uma criatura fantástica, e a maneira como ela, amizade, é resolvida pelo diretor em evidentes termos de "E.T.", o mesmo se pode dizer do personagem de Robert Redford. Como um fascinante Peter Pan enrrugado, seu personagem é o de um avô que é o único adulto da história que permite manter viva dentro de si a magia da infância: "Se vão por toda vida vendo apenas o que aparece diante dos olhos, você perderão um monte de coisas", diz ele a um grupo de garotos depois de contar pela enésima vez a incrível história de um dragão que, ele insiste, vive no tal bosque que é o misterioso quintal da cidadezinha. História na qual ninguém acredita. A não ser as crianças, último refúgio de pureza no qual a fantasia sobrevive.
É certo que a sub trama ambientalista nunca chega a adquirir peso específico no filme. Mas isto é o que menos importa, porque o núcleo do relato está em outra parte, na aposta pela magia e pela recuperação de um tempo narrativo que parece distante, caído em desuso, mas que, diante do filme, ainda tem muito a oferecer.


