O CINÉFILO FIEL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de julho de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

O sortido menu do Festival de Cannes sempre abre espaço para especiarias diversas. Mas difíceis de escolher, quando elas aparecem fora do dever de casa aqueles muitos filmes nas competições obrigatórias e extenuantes. Assim, se e quando sobra um tempinho, é possível amenizar as jornadas "art core" e partir para um bendito "relax hors concours" curtindo títulos mais amenos. Como este inteligente e bem humorado "Dois Caras Legais" (título que faz justiça ao original "Two Nice Guys"), que chega hoje aos cinemas brasileiros.
No primeiro olhar, parece um filme obsoleto. Coisa lá dos anos 1970 e 80. E num certo sentido é mesmo. Há aqui uma simpática herança: as comédias de ação com detetives patéticos, nas antípodas deste nosso início de século habitado por mecânicos super-heróis e franquias fantásticas. Essa exumação saudável e extremamente abusada em sua esperta manipulação do nonsense em forma de thriller tem sua origem e explicação graças à teimosia do diretor (e co-roteirista) Shane Black, não por acaso autor do roteiro de "Máquina Mortífera" que tal o Cinemark celebrar em 2017 os 30 anos deste cult com Mel Gibson e Danny Glover?
E ainda como justificativa traz o aporte de duas personalidades como Russell Crowe e Ryan Gosling que além de pouco familiarizados com a comédia também encararam o desafio de interpretar dois anti-heróis nos limites do repulsivo e do ridículo quando enfrentam todo tipo de aventuras e desventuras. A história está ambientada na Los Angeles de 1977 (impecáveis fotografia e direção de arte, pura estética retrô), infernizada por um transito caótico, crescente poluição e decomposição social. Neste contexto abjeto transitam Jackson Healy (Crowe), durão freelance que sobrevive distribuindo pancadas em depravados; e o tímido, simpático, torpe e frequentemente bêbado Holland March (Gosling), detetive particular no momento investigando a morte suspeita de uma atriz pornô. No primeiro e acidentado encontro entre ambos, o sumiço de outra garota fará esta dupla de perdedores unir forças para desvendar uma trama complexa, cheia de reviravoltas e personagens que acabam levando as pistas até o Departamento de Justiça da cidade.
O cinema e suas fórmulas. Uma delas, de êxito histórico dentro do segmento comédia, é exatamente essa: os buddy movies, filmes em que os personagens que se encaixam no perfil de dupla improvável, desajustada ou desencontrada, devem enfrentar juntos o conflito central que ao final os unirá. Este subgênero genealógico sempre dependeu de alguns elementos orgânicos e vitais: roteiro original e sólido que saiba manejar as regras do gênero; dois atores carismáticos e, claro, com boa química; e um diretor com habilidade suficiente para equilibrar esta receita. "Dois Caras Legais" trabalha com acerto à fórmula, revivendo títulos de sucesso como "48 Horas", de Walter Hill. Além disso, Shane Black se nutre com elegância e desenvoltura de outras fontes, como o humor físico e o absurdo de "Um Convidado Bem Trapalhão", de Blake Edwards, do film noir reciclado em "L.A. Confidencial", de Curtis Hanson, daquele espírito livre, leve e solto de "Um Tira da Pesada". E também de interminável lista de referências o espetador com largo espectro de memória vai desfiando ao longa da degustação.
Há de tudo, para todos os gostos. Festas mirabolantes, perversões diversas, gags inocentes ou não, muito funk e soul music: o universo histriônico dos personagens não tem limites. O humor recorre com frequência ao absurdo e nem por isso deixa de fluir com absoluta naturalidade, sem que isto interfira na ação ou na trama policial. Mas é bom ter em mente que as melhores intenções do roteiro - aliás escrito em 2001 e sem sinais de envelhecimento - seriam apenas boas intenções não fosse a performance da dupla central, Crowe-Gosling. O funcionamento é impecável, com ligeira supremacia do ator de "Drive", que faz aqui o homem sensível e endurecido revelando insuspeitada capacidade para a comédia. E inclusive se afastando do papel de bonitão para entregar-se ao desafio da comicidade.


