O CINÉFILO FIEL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

As duas faces da tragicomédia
Várias coincidências. A primeira: que a mesma história fosse filmada em 2015/16 quase simultaneamente, uma na França, outra na Inglaterra, respectivamente por Xavier Giannoli e Stephen Frears. A segunda, como consequência natural, que a distribuição internacional ocorra neste momento (ou quase) em mercados de todas as partes (ou quase). Este quase fica por conta do lançamento do "Marguerite" de Giannoli um pouco antes do "Florence" de Frears, com natural e maior ressonância mundial para este, com uma comissão de frente consagrada a partir do currículo da porta-bandeiras Meryl Streep e de um veterano mestre, diretor de trabalhos como "Ligações Perigosas", "Minha Adorável Lavanderia", "Os Imorais", "A Rainha" e "Filomena". Mas nem por isso a combinação das grifes Streep e Frears se saiu melhor, postas em confronto as duas adaptações da vida desta aberração canora, Florence Foster Jenkins. Em Londrina, este duelo de performances, por diferença de apenas uma semana, quase ficou em exibição em salas contíguas.
O caso Giannoli, ou o recorte francês
Teria sido fácil, cair na paródia. Seria óbvio, rir de Marguerite, mulher sem atributos para o bel canto, empenhada em cantar como se fosse uma diva, uma Callas. Ninguém diz a ela a verdade: o dinheiro desta mecenas evita decepções. Mas não compra o talento. Pobre baronesa Marguerite (entregue a uma atriz maravilhosa, Catherine Frot, capaz de envolver em ternura plena uma personagem tão vulnerável). Ela somente quer cantar, para encantar o marido (André Marcon). E somente tem a seu lado o fiel mordomo (Denis Mpunga), mais ou menos a réplica negra de Erich von Stroheim cuidando de Gloria Swanson por todos os meios em "Crepúsculo dos Deuses". Teria sido fácil para o roteirista/diretor Xavier Giannoli deixar-se levar pelo mau gosto e pela vulgarização, atirando seu filme na vala comum da paródia grosseira. Mas o resultado felizmente é uma surpreendente e sensível paródia.
Giannoli, com sensibilidade e bom senso, soube transformar o engano e a decepção que rodeiam Marguerite em algo fascinante e sugestivo. Diante do olhar inocente da baronesa, autoimune à sua incorrigível desafinação, desfila uma época nada inocente. É a Paris dos anos 20, imediato pós 1ª Guerra e impregnada pela total gratuidade do dadaísmo. Personagem complexa, Marguerite resulta o espelho onde todos se veem refletidos, toda uma época, seus medos, seu egoísmo, sua hipocrisia. O filme é parcialmente (ou livremente, para maior precisão) inspirado na vida de Florence Foster Jenkins.
O caso Frears, ou o viés inglês
"Florence Quem é Essa Mulher" , sem maiores constrangimentos, também se aproxima desta celebridade, desta anti-soprano e anti-contralto, dando ênfase a um estilo farsesco e à faceta histriônica da persona Meryl faz o que bem entende de Florence, rédea solta, bem ao estilo acadêmico da Academia de Hollywood, fui claro? Frears se atém mais à biografia de Florence, a "melhor pior de todas", e aí se distancia da livre (e mais rica) versão francesa. O argumento se situa na Nova York dos anos 1930 e 40, e seu tom é bem mais ameno, já que a chave privilegia a comédia (mesmo quando o roteiro aborda a sífilis precoce como o maior e decisivo drama na vida de Florence). Stephen Frears dedica a esta mulher singular um retrato carinhoso, e a todo momento o filme busca tão somente entreter o espectador, e pouco mais que isso, o que para o grande público tende a ser muito. Todos os personagens são nobres, planos, sem matizes, estereotipados. Ela em primeiro lugar. O marido, leal e devoto embora mantenha vida dupla (o maneirista Hugh Grant, aqui mais domado). O fiel pianista (Simon Elberg). E inclusive o crítico que não se deixa corromper por um punhado de dólares.
Mas seja por um ou outro método de trabalho, o que ambos os filmes têm em comum e sabem tirar proveito é oferecer boa ocasião para que o espectador reflita sobre o poder da música e o poder do dinheiro. É a música que mantém viva e ativa a frágil, precária saúde da mecenas Florence, que aplica sua polpuda herança na difusão de expressões clássicas. É o dinheiro também que compra consciências e cumplicidade, mantendo em alta o culto das vaidades. Na verdade, e nesse sentido, "Marguerite" e "Florence" são duas afinadas lições sobre a natureza humana.


