O Cinéfilo Fiel
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de julho de 2018
Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

O mais recente Wim Wenders está em lançamento em boa parte do mercado internacional. É o documentário "Papa Francisco, um Homem de Palavra", que o criador de "Paris Texas" exibiu há dois meses fora de concurso, em Cannes. Na Alemanha, onde estou no momento, o filme, uma longa entrevista registrada por Wenders mais ou menos on the road, é todo falado por Francisco em espanhol ou italiano. Infelizmente não vi, já que por aqui há enorme dificuldade em encontrar salas que não exibam filmes dublados em alemão, e portanto legendados em inglês. O fator é evidentemente complicador, em especial quando se trata de abundância de textos como neste caso, com o personagem se dirigindo quase todo o tempo diretamente à câmera. Mas pelas noticias gerais, muito rapidamente o filme deve estrear no Brasil, "país com mais católicos no mundo", segundo o Vaticano. Fica adiada, portanto, uma avaliação sobre os rumos mais recentes da trajetória do diretor alemão. Nesse compasso de espera, vamos tratando de atualizar a filmografia de Wenders, de tempos para cá se dedicando mais (e melhor) ao documentário "Pina"(2011), "Catedrais da Cultura" (2014), "O Sal da Terra" (2014). Estreia nesta quinta (19) em Londrina uma realização de 2016, "Os Belos Dias de Aranjuez" (há pouco tivemos a ficção "Submersão"). Concebido como um estudo sobre a relação entre cinema, teatro e literatura, "Os Belos Dias de Aranjuez" trouxe à tela grande o texto teatral homônimo do escritor, dramaturgo e roteirista austríaco Peter Handke, um ex-colaborador de Wenders. A origem é uma peça que reflete sobre os mecanismos da criação artística e de quebra ainda abrange uma ampla gama de temas: sexualidade feminina, desejo, beleza e a fronteira entre realidade e imaginação. Uma riqueza de ideias que molda um diálogo incessante que parece acontecer independentemente das perturbações do real.
Um homem e uma mulher conversam num terraço em Paris. A câmera, guiada pela musicalidade do texto de Handke, envolve os dois interlocutores em elegantes movimentos circulares propondo, através de harmoniosos jogos de montagem, uma quase osmose com a figura do escritor: quem está criando quem? A partir das perguntas do homem, a mulher recorda os primeiros deslumbramentos, os tempos em que ela amou como "vingança pela onipresente e despótica conspiração do mundo cotidiano contra corpo e alma" e, pouco a pouco, revela uma atitude militante vital, orientada para "salvar-se do confinamento da alma" e celebrar apenas aquela beleza "capaz de dar-se e abrir-se". Finalmente, os belos dias de Aranjuez fala daquilo que se perdeu. E suas reflexões não levam a nenhuma conclusão aliviadora. Pelo contrário.
É perturbador ver como Wenders reveste sua proposta cênica com ornamentos que não são necessários: uma câmera em movimento contínuo e ostensivo (filmou caprichosamente e desnecessariamente em 3D, uma fixação recente) e um Nick Cave ao piano em breve aparição mais ou menos gratuita. No entanto, o filme pode envolver e conquistar o espectador a partir da riqueza do texto e atores que se movem com a naturalidade de personagens do cinema de Richard Linklater ("Antes da Meia Noite", "Boyhood") e Eric Rohmer ("Minha Noite com Ela", "O Joelho de Claire").
Por sua vez, o jogo ágil de realidades e ficções, com o criador compartilhando espaço com suas criaturas, sugere títulos como "Adaptação" (Spike Jonze, 2002), "Dentro da Casa" e "Jovem e Bela" (François Ozon, 2012 e 2013, exibidos no Com-Tour) ou "Smoking / No Smocking" (Alain Resnais, 1993). Referencias que batem em torno de um par de personagens sem nome que, sentados em um jardim e acompanhados por pouco mais que uma maçã vermelha, podem ser considerados Adão e Eva de uma realidade sonhada.


