Cena de ‘Os Belos Dias de Aranjuez’:  filme envolve o espectador a partir da riqueza do texto e dos atores que se movem com naturalidade
Cena de ‘Os Belos Dias de Aranjuez’: filme envolve o espectador a partir da riqueza do texto e dos atores que se movem com naturalidade | Foto: Reprodução


O mais recente Wim Wenders está em lançamento em boa parte do mercado internacional. É o documentário "Papa Francisco, um Homem de Palavra", que o criador de "Paris Texas" exibiu há dois meses fora de concurso, em Cannes. Na Alemanha, onde estou no momento, o filme, uma longa entrevista registrada por Wenders mais ou menos ‘ on the road’, é todo falado por Francisco em espanhol ou italiano. Infelizmente não vi, já que por aqui há enorme dificuldade em encontrar salas que não exibam filmes dublados em alemão, e portanto legendados em inglês. O fator é evidentemente complicador, em especial quando se trata de abundância de textos como neste caso, com o personagem se dirigindo quase todo o tempo diretamente à câmera. Mas pelas noticias gerais, muito rapidamente o filme deve estrear no Brasil, "país com mais católicos no mundo", segundo o Vaticano. Fica adiada, portanto, uma avaliação sobre os rumos mais recentes da trajetória do diretor alemão. Nesse compasso de espera, vamos tratando de atualizar a filmografia de Wenders, de tempos para cá se dedicando mais (e melhor) ao documentário – "Pina"(2011), "Catedrais da Cultura" (2014), "O Sal da Terra" (2014). Estreia nesta quinta (19) em Londrina uma realização de 2016, "Os Belos Dias de Aranjuez" (há pouco tivemos a ficção "Submersão"). Concebido como um estudo sobre a relação entre cinema, teatro e literatura, "Os Belos Dias de Aranjuez" trouxe à tela grande o texto teatral homônimo do escritor, dramaturgo e roteirista austríaco Peter Handke, um ex-colaborador de Wenders. A origem é uma peça que reflete sobre os mecanismos da criação artística e de quebra ainda abrange uma ampla gama de temas: sexualidade feminina, desejo, beleza e a fronteira entre realidade e imaginação. Uma riqueza de ideias que molda um diálogo incessante que parece acontecer independentemente das perturbações do real.
Um homem e uma mulher conversam num terraço em Paris. A câmera, guiada pela musicalidade do texto de Handke, envolve os dois interlocutores em elegantes movimentos circulares propondo, através de harmoniosos jogos de montagem, uma quase osmose com a figura do escritor: quem está criando quem? A partir das perguntas do homem, a mulher recorda os primeiros deslumbramentos, os tempos em que ela amou como "vingança pela onipresente e despótica conspiração do mundo cotidiano contra corpo e alma" e, pouco a pouco, revela uma atitude militante vital, orientada para "salvar-se do confinamento da alma" e celebrar apenas aquela beleza "capaz de dar-se e abrir-se". Finalmente, os belos dias de Aranjuez fala daquilo que se perdeu. E suas reflexões não levam a nenhuma conclusão aliviadora. Pelo contrário.
É perturbador ver como Wenders reveste sua proposta cênica com ornamentos que não são necessários: uma câmera em movimento contínuo e ostensivo (filmou caprichosamente e desnecessariamente em 3D, uma fixação recente) e um Nick Cave ao piano em breve aparição mais ou menos gratuita. No entanto, o filme pode envolver e conquistar o espectador a partir da riqueza do texto e atores que se movem com a naturalidade de personagens do cinema de Richard Linklater ("Antes da Meia Noite", "Boyhood") e Eric Rohmer ("Minha Noite com Ela", "O Joelho de Claire").
Por sua vez, o jogo ágil de realidades e ficções, com o criador compartilhando espaço com suas criaturas, sugere títulos como "Adaptação" (Spike Jonze, 2002), "Dentro da Casa" e "Jovem e Bela" (François Ozon, 2012 e 2013, exibidos no Com-Tour) ou "Smoking / No Smocking" (Alain Resnais, 1993). Referencias que batem em torno de um par de personagens sem nome que, sentados em um jardim e acompanhados por pouco mais que uma maçã vermelha, podem ser considerados Adão e Eva de uma realidade sonhada.

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