"Divinas Divas" ficou apenas uma semana em cartaz em Londrina
"Divinas Divas" ficou apenas uma semana em cartaz em Londrina | Foto: Divulgação


Tanto se fala em diversidade, respeito ao outro, ao diferente... E pouco se faz, quase nada se pratica. A discriminação quanto ao fator humano vale também para o cinema. Não me refiro a preconceitos que se encontram nos argumentos, no reacionarismo/conservadorismo atrelados às tramas, promovendo o atraso, reacendendo o obscurantismo. Isto é fácil de detectar. O ponto aqui é a escolha dos filmes, e como são colocados ao alcance do espectador. Aquilo que o exibidor privilegia e determina como fator primeiro para o público. É claro: é um comércio, é preciso ganhar dinheiro. Tudo bem, o sistema põe e o comerciante dispõe. É preciso ter retorno pleno, abundante, que somente se dá com a exuberância visual, o carnaval de imagens, o estrondo ensurdecedor. É o cinemão pleno de artifícios e aparências, oco, lacunar. A alternativa é o alternativo. O cheiro do real, modesto e fluente, simples mas voluntarioso. Quando tem. Quando não tem, é esperar. O cinema na mão: o de sempre, o blockbuster, a imagem para o oblivion. Para o esquecimento. Sumário, quase sempre. O cinema na contramão, quase nunca: quando chega, é às escondidas, furtivo, oculto, clandestino, pedindo desculpas.
"Divinas Divas": ficou apenas uma semana em cartaz em Londrina. Uma única sala, horário indigesto (21h55). Um documentário brasileiro, uma estreia auspiciosa na direção, a da atriz Leandra Leal. No centro do argumento, o reencontro, o resgate das histórias e memórias de uma geração de artistas que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época dominada à força por ancestrais de Bolsonaro e afins. Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K. , Fujika de Holliday, Elonia dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo de travestis que testemunhou o auge da uma Cinelandia (no Rio de Janeiro) repleta de cinemas e teatros. O filme reúne essas artistas para a montagem de um espetáculo que traz à cena os perfis de divas pioneiras que comemoram 50 anos de carreira.

Sem desmerecer o talento e a sensibilidade demonstrados por Leandra Leal (ou talvez por causa disso mesmo), é preciso ressaltar seu DNA, fator determinante. Filha da atriz Angela Leal e neta de Américo Leal (criador do teatro Rival, no Rio), Leandra tem a intimidade necessária e suficiente para captar, na primeira pessoa, a profundidade dos depoimentos, sempre ricos e matizados, revelando o extraordinário recheio humano de seres dotados de talento. E muita coragem, para viver e sobreviver como pessoas "anormais" em tempos repressivos como aqueles sob as ordens da ditadura militar. Desbravadoras sem dúvida, batendo de frente com preconceitos familiares e da sociedade de seu tempo, elas abriram caminho para incríveis façanhas artísticas dentro e fora do Brasil. Além do forte sentido de coesão da narrativa, também são valiosos os momentos de ternura, melancolia e do humor valente e carismático deste grupo de desassombradas.

"Kiki – Os Segredos do Desejo": ficou duas semanas em cartaz em Londrina. E este vem da Espanha, e é refilmagem (muito superior) do original australiano, a comédia romântica "A Pequena Morte" (inédito em Londrina).
Manteve a configuração de comédia coral, na qual o sexo é elemento onipresente, resultando num pretexto para retratar um heterogêneo grupo de personagens em relação pessoal e sexual, com lugar para disputas, jogo de paciência, ternura, compreensão, fetiches... No verão madrilenho, cinco historias de amor e filigranas eróticas que transformam sentimentos, medos e pulsões de sexualidade em um interessante tratado de idiossincrasias morais.

Dirigido por Paco León, também um dos intérpretes principais, o filme mostra como problemas de relacionamento que surgem podem ser solucionados se os integramos de maneira adequada em nossas vidas. Apesar do tom ameno de comédia, há momentos em que resvala para o humor menos sutil. Também não há pretensões de aprofundar, digamos, patologicamente, as questões mais sérias entre casais. Mas o principal problema é que nem todos os conflitos despertam o mesmo interesse. Uns são enxutos demais, sem tempo para desenvolver melhor situações e personagens, e outros são excessivamente esticados. Apesar disso, o filme tem momentos divertidos no tratamento natural do sexo.

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