Norman, a esfinge

Em meio a tanta inércia intelectual, tanta pasmaceira travestida de ação eletrizante, tanta passividade disfarçada de adrenalina, a partir de hoje a programação abre espaço reduzido, mas é pegar ou largar para um filme que é respiro para a inteligência, para os neurônios em retiro forçado. Mais ou menos na base do "sai a galáxia veloz e furiosa, entram seres humanos com os pés no chão, tratando de trocar ideias sobre as coisas aqui da Terra".
"Norman" é um estranho objeto filmado. O que não o desqualifica absolutamente. Tem um subtítulo, aliás dois: o original (The Moderate Rise and Tragic Fall of a New York Fixer/A moderada ascensão e queda trágica de um negociador (?) de Nova York), e o brasileiro "Confie em Mim"). Trocando em miúdos: um fixer não é nada mais que alguém esperto que se dedica a criar conexões de negócios entre pessoas de poder, uma espécie de lobista que tira proveito de algumas situações ou, em dado momento, consegue dar contorno reais a uma importante negociação. Não está enganado quem pensou que a espécie tem a ver com o Brasil... A partir desta configuração, o diretor Joseph Cedar (israelense agora cooptado por Hollywood) dá a conhecer as peripécias do peculiar outsider Norman Oppenheimer, vivido por Richard Gere em contida exuberância.
O dia a dia do personagem é navegar, sub-repticiamente, entre as vidas da elite do poder de Manhattan. É um ser opaco, aparentemente sem vida privada. Vive ao telefone, tratando de conseguir favores ou buscando informações acerca de alguém. Ele se expõe como uma fraude, mencionando nomes e sugerindo estreitas conexões com pessoas influentes. Mas de fato seu negócio de consultoria é apenas uma farsa. A sorte dele muda quando conhece e se aproxima do carente Micha Eshel, influente político israelense que de imediato se conecta e se apoia em Norman. Três anos depois, Eshel se torna primeiro ministro de Israel, alguém pronto a por fim no conflito palestino-israelense, e Norman se converte em força importante na comunidade judaica em Nova York.
A partir daí, a direção de Cedar conduz o filme para uma encruzilhada entre real e imaginário. Conhecemos Norman, mas seus propósitos ficam sempre obscuros, dada sua multiplicidade. É quando entra em cena o trabalho impecável de Gere, criando um personagem que aponta em todas as direções. A primeira impressão sugere que ele é um espertalhão, alguém que se gaba de saber disso; às vezes parece só um ingênuo. Mas parece também um intrigante, que o ator explora até não ter mais limites esta ambiguidade. Merece reflexão mais abrangente este ser desconcertante.
O filme reforça afinal a opinião de que Norman é um perdedor que nunca teve a menor possibilidade de se sobressair ou de se realizar em nada. Pode se tratar de alguém assustado por desaparecer em vida, e que luta com unhas e dentes para se sentir útil, e para isso se vê forçado a se movimentar até limites insuspeitados. Este ímpeto o faz se imiscuir com a alta política - onde impera o jogo sujo, a falta de escrúpulos e a crueldade, como faz crer Cedar. E embora muito antes do desenlace nossa intuição pressinta que o pobre Norman ficará à margem de um happy end, a direção não perde a ocasião de nos propor um herói anônimo, de quem descobriremos uma inusitada face altruísta.
A esta altura, Gere parece definitivamente de costas para papeis superficiais. Ou de sex symbol. Ele constrói Norman através de uma série de pequenos e sutis detalhes que sugerem uma disfunção: um tique nervoso, um meio sorriso, uma tristeza refletida nos olhos quando sabe que ninguém o está olhando. É uma atuação dolorosamente divertida, que pouco a pouco se transforma em comovente enquanto a vida desse enigmático personagem vai sendo descoberta.
A maior força de "Norman" está no elenco. Steve Buscemi, Michael Sheen e Charlotte Gainsbourg, todos compõem personagens significantes para a narrativa e condutores de interação dramática. E vendo a empatia e fluidez de Norman/Gere, minha memória afetiva, traidora ou não, teimou em recuperar momentos do Mr. Chance criado há quase 40 anos pelo saudoso Peter Sellers em "Muito Além do Jardim".





