Medo do escuro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Você tinha medo do escuro quando criança? E agora, adulto, superou bem essa tal nictofobia, o horror ou medo fóbico da escuridão? Pode ser que não, em sua pré-história sapiens, mas com certeza alguma coisa incomodou você em dado momento da infância. Coisa atávica, nenhuma dúvida. Um calafrio vendo o nada escuro (ou o tudo escuro?), um tanto de ansiedade, os minutos que viraram séculos, a distancia em anos-luz de sua cama até o interruptor, o suor gelado debaixo da coberta em pleno verão sufocante enquanto seu lobo ou a assombração ou a luz não vem. O cinema, claro, conhece bem seu capital para investir no medo coletivo ou individual. E faz o que deve, na medida de sua competência ou ganancia. Aqui se fala sobre "Quando as Luzes se Apagam" (melhor porque mais direto o título original: "Lights Out"), o terror que se instala a partir de hoje no lugar mais apropriado: o escurinho do cinema.
Justiça se faça à imperial Hollywood. A Academia deveria criar um Oscar ao "melhor farejador", aquele headhunter caçador de argumentos originais estrangeiros e seus respectivos criadores que, quando descobertos, os estúdios se encarregam de abduzir bem depressa. Geralmente são jovens, desconhecidos e talentosos cineastas asiáticos ou europeus ou de outras paragens que realizaram sensacionais travessuras a custo quase zero, mas com potencial ilimitado de bilheteria. Vejam isto: o até então curta-metragista sueco David F. Sandberg fez em 2013 uma pérola próxima da perfeição de apenas 2 minutos e 41. O título era esse mesmo, "Lights Out", com o aterrador e singelo fio de história sobre um fantasma que aparece quando as luzes se apagam e desaparece quando se acendem. Filme de gênero em formato reduzidíssimo, mas de incrível poder de viralização, o que ocorreu de imediato. Corram para assistir, está lá no Youtube. E Sandberg já está iniciando a sequela de "Annabelle", apadrinhado por James Wan, o rei Midas da bem sucedida (crítica e bilheteria) onda de terror deste início de século, iniciada há quinze anos com "Jogos Mortais" (vale só o primeiro) e reforçada por diversos títulos como as duas recentes "Invocações do Mal".
A "versão estendida" de "Quando as Luzes se Apagam" apresenta um argumento mínimo impulsionado por mecanismo simples, mas bem azeitado é bom que se diga, um tanto repetitivo , mas eficiente para produzir suspense e terror. Na primeira cena do filme já vem dado o recado: entidade diabólica se aproveita da escuridão para matar suas vítimas. Como escapar? Com a luz, artificial ou não (um bom e funcional truque, valem as luzes do carro, de casa, o sol, a tela do computador, o celular). Não há profusão de detalhes, o filme dura apenas 87 minutos, mas faz falta uma ou outra explicação, como a origem do fantasma vingativo que vive nas sombras.
São quatro personagens, os protagonistas desta honesta proposta que trabalha com elementos reconhecíveis (sem se caracterizar exatamente como clichês) do gênero, como entidades sobrenaturais no espaço de uma grande casa (e seu indefectível sótão). O trabalho de Sandberg se realiza com algumas ideias simples e engenhosas - e mão firme na narração, condução do elenco, montagem, iluminação (no caso, questão de vida ou morte...) - e uma felizmente discreta utilização de efeitos visuais. São modestas ambições, mas que encontram resultados artísticos bem aceitáveis que entretém e assustam - quando as luzes começam a piscar é um mergulho no inferno - com aqueles momentos de respiro bem humorado como atenuadores de tensão, ansiedade e sobressaltos.
O filme deixa obviamente portas abertas para uma continuação, uma vez que a produção se fez com 5 milhões de dólares e já ultrapassou os U$ 61 milhões. É o terror mainstream vivendo uma nova era dourada.


