"La La Land": o musical tem sido sempre o guardião do mundo dos sonhos
"La La Land": o musical tem sido sempre o guardião do mundo dos sonhos | Foto: Fotos: Divulgação



E a profecia se cumpriu: após atropelar o Globo de Ouro, "La La Land" chegará à noite do Oscar (28/2) com apetite redobrado: é a aposta com mais chances (14, outro recorde) para colecionar estatuetas em ano que os outros oito concorrentes não são ou serão exatamente neste momento nenhuma expressão de popularidade, e não devem estrear nas salas até a data da premiação – para conhecê-los já, sugere-se o caminho de sempre, aquele trilhado pelos corsários, ou bucaneiros, ou flibusteiros.
O musical tem sido sempre o guardião do mundo dos sonhos. Não como um espaço enclausurado e remoto de onde nada ou ninguém poderia escapar, mas como o território onde os desejos divorciados da realidade, lutando contra os muros do realismo e da incompreensão, encontravam sua plenitude e seu contentamento. "La La Land" chegou neste verão para liberar sonhos, para incentivar a quebra de preconceitos e clichês e reapropriar-se deles com ímpeto inesperado.
O universo de "La La Land" nasce do cinema e do musical, suas referências mais viscerais. Do swing das big bands, do bebop de Charlie Parker, da moldura marroquina de "Casablanca" com o rosto de Ingrid Bergman no quarto de Mia; ou das piadas de Louis Armstrong que Sebastian invoca a título de inspiração. Após a apresentação enviesada no congestionamento da autoestrada, os dois voltarão a se encontrar. E, claro, se apaixonarão. Apesar da recuperação daquele território de sonho, chave para o musical, o diretor Damien Chazelle nunca se refugia na nostalgia de um mundo perdido, abandonado, fora de moda. O jazz não termina nos anos 1960 com o nascimento do rock, nem o musical em 1980 com a aparição do videoclipe: é seu espírito que segue vivo, é essa paixão que Mia e Sebastian recuperam quando se encontram, a mesma que alimentam em cada canção , a mesma colocam em ambições anacrônicas, às vezes agridoces, às vezes luminosas.

Mia e Sebastian: uma terna e deslumbrante história de amor (im)possível
Mia e Sebastian: uma terna e deslumbrante história de amor (im)possível



Mergulhados e inebriados em seus próprios sonhos, Mia e Sebastian só podem entender a extensão da realidade quando conhecem a verdadeira dimensão dos respectivos sonhos, o que implica nessa liberdade combinada com as frustrações da vida e os revezes da existência cotidiana. É nesse momento que chama a atenção como Chazelle, que já havia cortejado o melodrama mais duro em "Whiplash", sabe manejar os sentimentos doce-amargos e decididamente românticos, em uma trama simples onde há espaço para o drama e para o humor, evitando as estridências e quebras de tom em que se fala da importância de sonhar e de providenciar meios para fazer realidade desses sonhos, arriscando a realidade da vida, as consequências.
Mia e Sebastian, à procura de seu lugar no mundo do show business, procuram alcançar o equilíbrio e esse difícil momento que justifica uma vida inteira: assumirem sua paixão sem caírem num conto de fadas ou num pesadelo de terror, imersos na fama, no dinheiro fácil e aplaudidos por um público idiota. Permeando a situação está uma terna e deslumbrante história de amor (im) possível.
Neste sentido, Chazelle parece um apaixonada tanto do musical clássico de Hollywood como de variantes e fórmulas alternativas que buscam a mesma fascinação pelo pendulo que oscila entre sonho e realidade. No musical o princípio da realidade fica suspenso antes os olhos do espectador, predomina só o sonho como pretexto e argumento. Pelo menos era assim mesmo em muitas das fantasias – goste-se ou não do gênero – barrocas e trágicas na sua superficialidade, como "O Fundo do Coração" (Coppola, 1981), "New Yoir, New York" (Scorsese, 1977) ou "Nasce uma Estrela" (versão George Cukor, 1954). Mesmo sendo uma fantasia, curiosamente em "La La Land" quase acreditamos no que vemos.

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