A bela Charlize Theron aparece num cenário de movimentos contraculturais
A bela Charlize Theron aparece num cenário de movimentos contraculturais | Foto: Reprodução



O que não pode provocar no espectador um trailer fabricado só para causar ...Agora escolham: causar exatamente o quê? Quando vi no cinema imagens do trailer de "Atômica", agora esticando em sua segunda semana na cidade, o desânimo foi imediato: mais um daqueles convulsos coquetéis de violência e sexo tocados em velocidade alucinante. Como sempre, em nome da rendição ao fascínio pelo desconhecido que a sala escura pode desvendar, para o bem ou para o mal, lá fui eu em busca da explosão de radiatividade que a pós-apocalíptica e furiosa "atômica" Charlize Theron prometia no cenário de uma Berlim envolvida no caos de um muro que ruía e levava junto na queda os destroços do comunismo. Aparando – enxugando, para maior rigor e justiça – algumas rebarbas da generosa violência gráfica (não estivesse em sua origem uma graphic novel) presente em muitas sequências da narrativa, "Atômica" é um misto de espanto, estranheza e fascínio, um combinado de impressões favoráveis provocadas por algo inesperado.
Não foi à toa que Antony Johnston, autor da novela gráfica em que se baseia o filme, a batizou de "A Cidade Mais Fria" (The Coldest City). Berlim já recebeu atenção generosa do cinema como polo da guerra fria, servindo o muro como marco físico e simbólico de um longo período de tensões (anos 1950, 60, 70 e 80). Em Berlim, centro de espionagem, contra espionagem e intrigas derivadas, o termômetro do conflito ideológico EUA-URSS atingiu marcas temerárias por conta da intensa guerra econômica, diplomática e ideológica travada nos bastidores, visando a conquista de zonas de influência. É nesse cenário, e no ano de 1989, às vésperas da queda do muro, quando espiões e contra-espiões da CIA, do MI6 e da Stasi (polícia secreta da Alemanha Oriental) entram em estado de salve-se quem puder, que entra em cena a anti-heroína Lorraine Broughton (Charlize).
A história se concentra na busca de uma lista de todos os agentes infiltrados em Berlim oriental. Lista longa e que abriga toda espécie de espiões. Lorraine é um mix de Bond, James Bond; um tanto de Modesty Blaise; outro tanto do Harry Palmer de Michael Caine. E não podia faltar o intrincado, desolado e amargurado universo de traições da espionagem de John Le Carré. Claro que tudo isso ganha uma sugestiva ambientação de uma época convulsa e um fundo no qual coexiste uma mescla de movimentos contraculturais musicais e estéticos – o punk, o hardcore e o gótico, todos desembocando na vertente tecno. É um exercício estilístico de efeito, carregado de tonalidades tão frias na fotografia como as cores pálidas, esmaecidas da guerra que ilustram.
Bem, de volta à tal lista. Lá pela metade da narrativa, o espectador mais antenado já detectou que ela não tem muita importância, e é mais ou menos inútil ficar muito atento ao argumento. Somente a visão do todo vai entregar quem é quem e para que lado do muro trabalhava. A leitura política é rasa, bem plana mesmo (deve ser por isso que não há cópias em 3D), mas ao fundo a questão ética ganha um tanto mais de profundidade – não tanto quanto, por exemplo, nas novelas adaptadas de Le Carré, como "O Espião de Sabia Demais". A moral da história quem distribui é o Percival vivido por um aqui ótimo James McAvoy (com um visual saído diretamente do set de um filme de Guy Ritchie). Diz ele: "Só resta uma pergunta: quem ganhou e o que foi este jogo f..... jogo". E ele continua: "Para ganhar, você deve primeiro saber de que lado você está, e essa é uma questão semelhante à dos buracos negros". E conclui, reinterpretando Maquiavel: "É um prazer enganar aqueles que enganam".
Embora Lorraine não utilize sua atração (fatal, sempre) para dar um rumo ao trabalho como espiã, o filme exibe em grande estilo e contabiliza a beleza fisica de uma magnifica Charlize. O diretor David Leitch ("John Wick") narra com flashbacks em tom tenso, paranóico, com influências ético-estéticas de John Woo e Tarantino e do filme noir. A música tem importância chave para dar textura tambem à violência (excessiva, é obvio) e ganham especial proeminência David Bowie, Queen, George Michael, Nena, Depeche Mode, New Order, A Flock of Seagulls. A notar no comportamento de Lorraine uma ponte entre o puro hedonismo e o essencialmente humano. Tudo isso é muito, e bom, para um filme que poderia ter sido um enorme vazio. Comemoremos.
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