Iluminismo versus obscurantismo
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quarta-feira, 05 de abril de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Tinha razão Shakespeare: havia mesmo algo de podre no reino da Dinamarca. Após o período de "séculos obscuros", de incertezas e trevas que viveu o país no chamado antigo regime, o ano de 1768 marcará um antes e um depois, uma transição na história dinamarquesa, e trará o começo da transformação. Ainda que o Século das Luzes já tivesse começado a atuar de fato em outros países europeus, foi somente quando o monarca da Noruega e Dinamarca, Christian VII, nomeou um médico de origem alemã, Johann Friedrich Struensee (um muito contido Mads Mikkelsen) como conselheiro de Estado, que boa parte do país começou a vislumbrar uma "iluminação", naquilo que se refere aos aspectos intelectual, cultural e social. E é este encontro que marca a reviravolta essencial em "O Amante da Rainha" (EnKongelig Affoere, 2012).
Neste filme dinamarquês que entra nesta quinta (6) em segunda semana no circuito local, a trama está centrada no triângulo amoroso composto pelo histriônico, doente e pueril rei vivido pelo desconhecido mas excelente Mikkel Boe Folsgaard , pelo seu médico já mencionado e pela jovem mas forte e madura rainha Carolina Matilde de Hannover (uma Alicia Vikander sublime), os três vítimas de um período de obscurantismo próprio da Idade Média. Nenhuma dúvida: o romance está lá, bem construído inclusive, mas o que o filme do diretor Nikolaj Arcel destaca mesmo é precisamente o contexto político-social. O filme é um exercício didático, já que o que vem narrado é bastante fiel às crônicas históricas do que ocorreu naquele período.
Neste sentido, Struensee, o médico do rei, não apenas atua como tal mas se apresenta como um docente adiante de seu tempo, como um ilustrado abrindo as cortinas de uma velha Dinamarca para deixar que o sol irradie e sua luz desperte as consciências reacionárias inspiração em Voltaire e Rousseau. Através da figura do médico, o diretor Arcel faz uma vibrante apologia do "atreva-se saber" e inclusive do "atreva-se a mudar" o curso das coisas. E o espectador está autorizado a também se atrever, e afirmar que, após assistir o filme, será lícito traçar paralelos com respeito à situação social dos dias de hoje. Ao fim e ao cabo, e apesar da distância no tempo, nem a política, nem a sociedade, nem sequer a natureza humana mudaram significativamente, permanecendo a chama de rebeldia, de mudança no tabuleiro da luta de classes, sempre marcada por incongruências e corrupção em quotas iguais.
Século das luzes contra Idade Média, Voltaire contra Maquiavel, tudo mesclado por boa dose de romantismo. Não é de estranhar, portanto, que "O Amante da Rainha" fosse nominado para concorrer ao Oscar 2013 de melhor filme de fala não inglesa (perdeu para o chileno "No"). Nikolaj Arcel (roteirista da primeira e melhor parte de "Os Homens que Não Amavam as Mulheres") realizou um muito bom momento de cinema de época, aparentado com filmes como "Ligações Perigosas", de Stephen Frears, ou "Barry Lyndon", claro que sem aspirar à condição de um Kubrick. No entanto, o diretor obteve um drama histórico que não resvala para o maniqueísmo nem escorrega em lugares comuns.

Neste estranho triângulo de personagens, particularmente acertada a relação que mantém o perturbado rei e seu ilustrado médico. O trio central de intérpretes consegue a química necessária. Mads Mikkelsen demonstra que por trás das lágrimas de sangue do vilão Le Chiffre de "Casino Royale" existe um ator de muita raça. É um especialista em contenção dramática, como já havia mostrado em '"A Caçada", também exibido pelo Com-Tour. Nos outros dois vértices, a bela Alicia Vikander e o surpreendente Mikkel Boe Folsgaard recebem nos ombros carga pesada , e se dão muito bem na empreitada.


