Identidade e humanidade
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quarta-feira, 01 de março de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

O #OscarSoWhite do ano passado não só mudou de cor este ano, passando a #OscarSoBlack, mas também foi agora #OscarSoIndie, sem discussão. Esta foi a temporada dos cinquenta tons de negro, liderada por "Moonlight", o ganhador do Oscar que estreia hoje em Londrina. Um filme "saído do nada", como definiu o mestre de cerimônias da gala, Jimmy Kimmel. "Do nada" ele quis dizer desde as fronteiras mais distantes de Hollywood, produzido por três pequenas companhias pouco ou nada famosas (uma delas de Brad Pitt e George Clooney) e dirigida por um realizador que até o ultimo domingo somente era conhecido nos circuitos de cinema independente.
Mas "Moonlight" não foi o único filme "so black e so indie" que competia nesta edição do prêmio. O conjunto de títulos nominados foi o resultado mais visível do avanço da Academia destinado a passar a limpo a imagem, demasiado branca e demasiado mainstream, dos Oscar da temporada passada. Prova disso são os também indies "Manchester By the Sea", "La La Land" (que por muito luxuosa que pareça, e de fato é, não tem por trás uma major, uma grande companhia a bancar seu orçamento) e os blackish "Um Limite Entre Nós", "Talentos Ocultos" e "Loving".
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Em 2014, 94 por cento dos membros da Academia eram brancos, três quartos do total eram homens e mais da metade tinham mais de 60 anos. Mas a presidente da casa, a afrodescendente Cheryl Boone Isaacs, está trabalhando bem e conseguindo alterar esses números através de movimentos de inclusão mais jovens, mais negros, mais mulheres. Menos ranço, afinal. Refinando o perfil dos dois maiores vencedores deste Oscar, é surpreendente que a história do amadurecimento de um jovem negro, pobre e homossexual, filho de mãe alcoolista e viciada em crack ("Moonlight") tenha se imposto diante de uma comédia dramática musical que relê os clássicos dos anos 1950, entre cores cintilantes e um romance glamurizado com final agridoce ("La La Land").

Retomando a questão "de onde saiu este filme que saiu do nada, chamado Moonlight ?" Ele veio, em parte, da própria história de seu diretor e co-roteirista, Barry Jenkins, e se baseia em parte no texto teatral de Tarell Alvin McCraney, o outro co-roteirista. No anos 1980, depois da infância na periferia de Miami muito parecida a do personagem Chiron, Jenkins estudou cinema, e em 2008 estreou com o muito aclamado e pouco visto "Medicine for Melancholy". Apesar de bem conceituado com esta estreia, ele passou oito anos sem produzir nada, até que conseguiu "vender" sua ideia de "Moonlight", cuja característica mais acentuada é o enfoque dramaticamente reticente e insubordinado que dá a uma história que tinha tudo para ser sórdida e mórbida negro, pobre e gay, vítima de bullying, sem afeto e trancado por dentro e por fora como meio de sobrevivência. No trato formal, frequentes câmeras lentas, climas visuais e invenções que ressaltam o universo interior que o protagonista mantém encerrado a quatro chaves.
O conflito de Chiron funciona em vários níveis: estrito senso, é a melhor representação já feita do que implica ser negro e gay em uma cultura conservadora e estereotipada como a afro-americana. E também apela ao grande publico ao abordar como vivemos e o que significam esses momentos que, de uma forma ou de outra, marcam nossas vidas para sempre. Audacioso, sensível, atípico e universal, "Moonlight" atenção: observem atentamente aquilo que une e dá real substancia de humanidade a todos os personagens dos filmes concorrentes ao Oscar desta safra é o discurso sobre uma busca incessante e transcendente, a busca de nossa própria identidade. Pode não ser muito para alguns, mas o bastante para este Oscar livre de preconceitos. Por dois anos seguidos, brilharam na direção certa os spotlights da Academia, celebrando talento e audácia. The best is yet to come, ou o melhor ainda está por vir. Será ?


