Humor à velocidade da luz
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

"Deadpool 2" é a óbvia sequela das aventuras do mais desqualificado, mais politicamente incorreto super-anti-herói da fábrica Marvel, o mais cínico, virulento, iconoclasta, escatológico, insolente, arrogante, sarcástico, presunçoso personagem da constelação de seres talentosos e dotados de poderes especiais metidos em collants. E proporcionalmente mais bem sucedido na resposta massiva do público, que pela segunda vez em três anos, está saudando com entusiasmo esta proposta anárquica e bem humorada. Não tinha como dar errado o que deu tão (inesperadamente) certo da primeira vez. Portanto, o narcisista e escrachado mutante Wade Wilson - Ryan Reynolds, quem mais? - está de volta para infernizar a vida de seus pares na tela (ou seriam impares?) e da ansiosa e cúmplice plateia que obtém exatamente o que esperava. Isto é, mais e mais do mesmíssimo, mas com um 'pormaior' que faz toda a diferença: o personagem, se em sua estreia se mostrava de estupefaciente e indomável eloquência, neste segundo opus está ainda muito mais verborrágico e irrefreável.
Wade está planejando criar família ao lado de sua adorada Vanessa (Morena Baccarin) quando a tragédia arromba a porta. Ela se vai, ele sobrevive, massacrado pela dor. Deadpool tem impressionante poder de auto cura, e por isso continuará combatendo o mal. Que se apresenta como um alienígena viajante, um exterminador do futuro que vem para acabar com um garoto superdotado que é fogo, literalmente. Deadpool/Wade pretende salvar o garoto (que também é vitima de pedofilia), e para isso cria um esquadrão de elite (elite?!) batizado como X-Force.
Este segundo tempo de "Deadpool", no entanto , perdeu um quê do frescor da arrancada, do desconcertante escracho temperado pela violência super-heróica, enfim, daquela surpreendente originalidade que imprimiu ao primeiro filme um ultrajante (e cativante) charme. Uma vez conhecido o personagem e suas alternâncias de tom, sua capacidade de romper toda e qualquer barreira de sem cerimonia isto já não surpreende tanto. O que é fascinante, no entanto, é que o roteiro conseguiu multiplicar as centenas de momentos divertidíssimos, bom número deles memoráveis. Vários coadjuvantes, como o taxista Dopinder (Karan Soni) e alguns rostos novos que preenchem a tela, dão o suporte necessário a famosa "escada" nos esquetes de humor para a feliz finalização de Reynolds, agora também assinando a escritura.
Não há como destacar este ou aquele momento são tantos e captados no digital com tal velocidade que o mais esperto espectador deverá estar em alerta máximo para não perder absolutamente nenhuma das piscadas de olhos que o filme dá em todas as direções, neste superpovoado imbróglio de cultura pop e besteirol. Cansa um pouquinho, mas o saldo é compensador. Mesmo que você não consiga sequer imaginar onde está (ou em que cena esteve) Brad Pitt perdido nesta fértil selva de referencias, citações, gozações e o que mais o espectador queira. Está tudo lá. Ah, quem dirige é David Leitch, aquele de "John Wick" e "Atômica". Não é bobo não, sabe onde meter as mãos, desde que permita Ryan Reynolds, o verdadeiro dono do espetáculo.


