"Mostrar o filme no Brasil, com esta onda conservadora, pode levar a discutir essa história. Sair daqui premiado é especial e genial. Quero dedicar este prêmio para os meus filhos. Eles serviram como motivo para a realização de 'Ferrugem', e dedico também para a sua geração, que é sobre o que nosso filme fala". O agradecimento do diretor baiano/curitibano Aly Muritiba, ao receber seu Kikito de melhor filme (e mais os de melhor roteiro e desenho de som) na gelada noite de encerramento do 46º Festival de Cinema de Gramado, traz embutida a síntese do que é e o que representa este trabalho que estreia nesta quinta-feira (30) em lançamento nacional nas principais capitais e cidades do País - em Londrina a exibição será no Cine Com-Tour/UEL, no Lumière Royal Plaza e Cineflix Aurora.

Tati, protagonista de 'Ferrugem', é vítima de cyberbullying por um vídeo vazado
Tati, protagonista de 'Ferrugem', é vítima de cyberbullying por um vídeo vazado | Foto: Divulgação



Um conto sobre o abuso, sobre o bullying , cyberbullying e o sexting (envio de textos com conteúdo sexualmente sugestivo via mensagens SMS pelo celular), "Ferrugem" segue os passos da adolescente Tati, de vida risonha compartilhada em seus melhores momentos através do Face e do Insta. Compartilhada a ponto de transtornar e alterar a existência dela: algo de muito pessoal e íntimo, para nunca ser compartilhado, vaza e cai no grupo de whatsapp do colégio.

Definido pelo diretor Aly Muritiba como "uma história sobre medo, insegurança, crescimento e misoginia", "Ferrugem" segue os passos da personagem Tati (a estreante Tiffany Dopke), adolescente como muitas, contemporânea, bela, misto de vitalidade, alegria e certa leviandade ao compartilhar seus melhores momentos ligeiros no Instagram e Facebook - selfies, curtição com amigas e que tais. Mas outro compartilhamento, à revelia dela, é que vai de repente transformar e transtornar sua existência: Tati perde o celular, e um vídeo de conteúdo sexual com o ex-namorado e que obviamente ela não gostaria jamais de compartilhar com quem quer que seja, cai nos grupos de whatsapp do colégio. E o mundo da garota desaba, com desdobramentos aniquiladores. O filme é, entre outras coisas não menos atuais e importantes, um contundente alerta sobre as possíveis (e nefastas) consequências do compartilhamento de imagens íntimas. Responsabilidade e culpa também fazem parte desse quadro desolador.

A rigor o tema não é novo: filmes, séries e até telenovelas já tocaram no tema. Mas é pelas mãos de Aly Muritiba que ele agora chega ao público. Dividido em duas partes, "Ferrugem" abre com uma cena vital: durante uma aula de Biologia em visita a um aquário gigante, Tati está (com o celular apontado...) olhando fixamente uma enguia saída de um coral. Amarelo-ferrugem, o peixe abre e fecha a boca, em atitude ameaçadora. "Dizem que, quando se sentem ameaçadas, elas podem atacar para se defender", a jovem diz para seu atual foco de "ficar", o jovem Renê (Giovanni de Lorenzi).
Aqui está posta a razão desta primeira parte. O centro da ação é Tati e seu inferno quando perde o celular enquanto flertava com Renê. O bullying que se segue é feroz e implacável, anulando a capacidade de reação da garota e hiper dimensionando sua angústia solitária e silenciosa. Machismo, hipocrisia e tudo o que é perverso no ambiente escolar está ali, a sufocar, a acuar Tati: a crítica de Ali se espalha entre garotos e garotas, que saboreiam sua "má fama". Envergonhada, humilhada, impotente diante da estupidez misógina e sentindo-se abandonada, Tati se recolhe ao abismo do infortúnio.

Na segunda parte o filme segue os passos de Renê, na contramão da via autodestruidora de Tati. Ele está na casa de praia do pai, professor de Biologia do colégio, que quer poupá-lo de um sentimento de culpa que aos poucos vai oxidando, enferrujando e corroendo o jovem. Há um conflito familiar que lança luzes sobre o comportamento dúbio de Renê (ele pode ou não ter sido responsável pelo vazamento do vídeo) e o reencontro com a mãe - os pais são separados, e se caracteriza o abismo geracional - termina como definidor de águas, literal e figurativamente.

É preciso que se atente à inventiva construção estética proposta por Muritiba em consonância com o trabalho primoroso do iluminador português Rui Poças: nesta parceria por trás das câmeras, os recortes de Tati e Renê ganham a devida ressonância dramatúrgica. Para além da importância dos temas abordados, como a questão do maléfico vazamento dos vídeos íntimos sem consentimento, "Ferrugem" é oportuno sem ser oportunista, ferino sem ser brutal, contemplativo sem ser passividade. Ali Muritiba propõe e entrega ao espectador todas as ferramentas necessárias e imprescindíveis para que ocorra o debate. Cabe ao lado de cá da tela dar o passo seguinte. Pois é preciso que se faça alguma coisa, urgentemente.

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