‘O Insulto’ é um urgente testemunho político sobre os conflitos insolúveis no Oriente Médio
‘O Insulto’ é um urgente testemunho político sobre os conflitos insolúveis no Oriente Médio | Foto: Divulgação



Há uma categoria praticamente desprezada pelo (tele)espectador que anualmente acompanha a movimentação midiática em torno do Oscar – a histórica 90ª cerimonia de entrega do prêmio acontece neste domingo (4). Como sempre, são cinco nominados para melhor filme de língua estrangeira, e a entrega solitária da estatueta se perde em algum momento da noite, congestionada pela habitual parafernália visual e sonora de autocelebração. De modo geral, os títulos que representam cinematografias off Hollywood costumam ter mais qualidades. Ou pelo menos costumavam: a Academia andou se reciclando e se abriu mais para as ousadias internas, para o novo, para questões que a indústria antes desconhecia ou maltratava.
De qualquer modo, o quinteto que este ano corre atrás da premiação da categoria uma vez mais oferece alta dosagem de excelência: "Uma Mulher Fantástica" (Sebastián Lélio, Chile); "Sem Amor" (Andrey Zvyagintsev, Russia); "Corpo e Alma" (Ildikó Enyedi, Hungria); "A Arte da Discordia/The Square" (Ruben Ostlund, Suecia) e "O Insulto" (Ziad Doueiri, Libano). Todos distribuídos no Brasil. Em Londrina, "Uma Mulher Fantástica" e "Corpo e Alma" ganharam visibilidade no espaço que o cinéfilo local ama odiar, o conjunto de salas da empresa Lumière, no Royal Plazza Shopping, que desenvolveu expertise em deixar quase invisíveis títulos preciosos. Mas quase todos já vinham disponíveis por coincidência em outro gueto, este frequentado por piratas do Caribe e outras enseadas.
A checar obrigatoriamente a partir de hoje, em versão tela grande, ali-onde-você-sabe-onde, aquele que pode dar ao Líbano seu primeiro troféu da Academia, o verdadeiramente excelente "O Insulto". A fórmula que o diretor e roteirista Ziad Doueiri é tão antiga como a humanidade, leia-se aquela que fala dos vizinhos que iniciam uma guerra por um nada, uma disputa banal, embora a intenção de fundo do libanês seja trasladar este nada para o cenário de mil problemas étnicos/religiosos/culturais/políticos que pontuam todos os estados do Oriente Médio. Uma estratégia narrativa que certamente já foi utilizada em outras oportunidades, mas raramente com a eficácia do filme em questão.
Quantos conflitos tiveram origem na história e quanto na história não foi criado por um problema aparentemente simples? Quem melhor para responder senão aquele que presenciou e viveu na carne uma guerra, seja algoz ou mártir ? Mas as feridas existem e persistem, e será preciso curá-las seja como for, porque ninguém é dono do monopólio de ser vítima.
Um bairro em Beirute. "O Insulto" abre no dia em que Toni, cristão libanês, rega suas plantas na varanda. Um pouco de água cai e molha acidentalmente a cabeça de Yasser, refugiado palestino e capataz de obra. Tem início uma disputa acirrada. Furioso, Yasser insulta a Toni que, ferido em seu orgulho, decide levar o assunto perante a justiça. Começa um longo processo que se transforma em alguma coisa com dimensão nacional, confrontando palestinos e cristãos libaneses na Suprema Corte da capital. A mídia manipulada se encarrega de amplificar a repercussão.
O diretor Doueiri constrói com muita perspicácia a história de uma rivalidade, completamente absurda, que vai crescendo até limites insuspeitados por culpa, em boa parte, do orgulho e teimosia masculina/machista. Um aperto de mãos fruto de boa vontade não teria solucionado tudo? A história de como um bate-boca deriva em conflito e este, por sua vez, termina em julgamento de repercussão nacional que ameaça a estabilidade de uma já difícil convivência. Durante boa parte de sua metragem, "O Insulto" é um intenso drama de julgamento no qual as partes se enfrentam destilando seus profundos rancores. A necessária verborragia mantém seu nível de interesse com uma direção dinâmica que não oferece qualquer trégua. Por vezes o tema se mostra um tanto discursivo em sua última parte, dando a impressão de não saber quando nem como acabar. Mas o final, um sensato apelo à reconciliação nacional, resulta bastante satisfatório.
Quarto longa-metragem de Ziad Doueiri (os demais são inéditos no Brasil), em carreira iniciada depois de ser por longo tempo técnico em Hollywood. Começou como assistente de câmera do cinema de Tarantino, em títulos como "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", o que aqui se nota através de sua imaginativa planificação e rápida montagem. Impressionantes as interpretações de Adel Karam (Toni) e Kamel El Basha (Yasser); o primeiro é veterano, enquanto o segundo estreou no filme, levando o prêmio de ator revelação no Festival de Veneza do ano passado. Ambos refletem com precisão seus personagens obstinados, que transformam "O Insulto" em urgente testemunho político sobre como estão ainda irresolvidos os conflitos no Oriente Médio, como ainda sangram aquelas feridas. Como é difícil ceder e conciliar.

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