'Elle', para ver sem antolhos
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quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Antolhos, você sabe, são aquelas peças de couro que cobrem os olhos dos animais de montaria, especialmente cavalos, que os obrigam a olhar somente para frente. Então: diante da melhor estreia desta quinta (indiscutível), o thriller "Elle", um dos grandes injustiçados estre não no Festival de Cannes, o espectador não só pode como deve olhar e pensar em todas as direções, porque as pistas espalhadas pelo diretor holandês Paul Verhoeven e por sua diabólica protagonista Isabelle Huppert estão em toda parte, latentes e patentes. Olhos bem abertos, portanto, nesta inquietante jornada aos subterrâneos da moral.
O 16º longa metragem do realizador de "Instinto Selvagem", "O Vingador do Futuro", "Tropas Estelares" e do "Robocop" original, é baseado na bem sucedida novela noir "Oh...", de Philippe Djian, o filme arranca com uma cena brutal de estupro. Um homem encapuzado invade a casa de uma mulher, Michelle, e a agride sexualmente, deixando múltiplas sequelas. Ela não só não parece traumatizada como esconde o fato da família e dos amigos, e ainda deixa de registrar a ocorrência na polícia. Mas Michelle quer muito (precisa, até) saber quem a atacou de forma tão brutal. "Elle" lida basicamente com o poder e com a manipulação, e isto bastaria para fazer do filme um tratado sobre o underground da humanidade. Mas felizmente há mais, muito mais.
O espectador logo conhecerá sua dinâmica de trabalho (ela não é exatamente uma chefe de trato muito fácil é bem sucedida sócia de uma empresa), familiar (tem um passado trágico que a condena, uma mãe com um "noivo" jovem e um filho bastante patético que está na iminência de ser pai), bem como suas relações com vizinhos, amigos e seus vários amantes. Além da genialidade de Isabelle, também brilham nos papéis secundários os coadjuvantes Anne Consigny, Charles Berling, Laurent Lafitte e Christian Berkel.
"Elle" que dialoga à sua maneira (nunca subserviente) com os melhores thrillers psicológicos de Hitchcock, De Palma e Chabrol, é a cada minuto um filme sempre inusitado, audacioso, inquietante e com um humor tão negro e desconcertante que está continuamente a alfinetar o espectador. Entre as muitas reações diante do filme a maioria muito positivas, estão as de algumas jornalistas que de imediato, em Cannes, questionaram o olhar que Verhoeven dirigiu à figura da mulher. Mas a verdade vocês que verão o filme tem a obrigação de perguntar: mas o que é a verdade ? é que a dupla Verhoeven-Huppert se entendeu às mil maravilhas ao tratar de uma temática ambígua e provocadora, única porque não pode ser aprisionada em nenhum gênero, seja o que for, tragédia edipiana, thriller de suspense, erotismo psicológico, comedia negra, melodrama sexual-criminal. É um filme único, impressionante e maldosamente divertido em sua abordagem da perversão e em sua aposta pelo absurdo que, de qualquer maneira, nunca menospreza a obrigatória companhia (fértil com toda certeza) da imaginação do espectador. "Elle" lida basicamente com o poder e com a manipulação, e isto bastaria para fazer do filme um tratado sobre o underground da humanidade. Mas felizmente há mais, muito mais.
Ainda sobre a interatividade entre diretor e atriz: ambos exploram esses territórios do gênero humano os quais não se pode abordar com conceitos vulgares, como a vingança, o prazer, o domínio, o desejo ou os instintos básicos. Não há como deixar de admirar a capacidade desta dupla para colorar numa mesma moldura tanto desconcerto, maldade, erotismo feroz e provocação ao sistema de ideias do ser humano seja ele homem, mulher, feminista, carnívoro, vegetariano ou ateu.
Alguém em Cannes definiu La Huppert como a musa da provocação. Justo. "Elle" simplesmente não existiria sem a entrega vampirizante da atriz. E pensar que os produtores chegaram a convidar várias atrizes (Nicole Kidman e Diane Lane, entre outras), mas felizmente todas recusaram em função das peculiaridades, digamos, pouco palatáveis da personagem. Ao lado do alemão "Toni Erdmann", "Elle" se perfila como o representante francês para a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E querem saber de um pequeno segredo? Caso indicado, o filme não deverá ganhar. É talento demais para uma Academia caindo de senilidade.


