O CINÉFILO FIEL -

'Doutor Dolittle', o menos problemático

A bicharada falante oferece a maior fonte de interesse ao espectador

Recém-lançado em praticamente todos os mercados internacionais, e imediatamente se ressentindo dos efeitos negativos gerados pela (quase) totalidade da crítica nos EUA, “Dr. Doolittle” confirma de certa forma a maldição que persegue o personagem-título. Escritas e ilustradas a partir de 1920 pelo engenheiro britânico Hugh Lofting, a fonte literária são as histórias infantis sobre um médico que aprende a falar com os animais.


O filme em exibição na cidade é a terceira e mais recente adaptação das peripécias de Dolittle. Ele já teve o rosto do inglês Rex Harrison na interminável versão musical e soporífera de 1967 (lançada há 50 anos em Londrina no Cine Ouro Verde, e que por pouco não leva a 20th Century Fox à falência) e de Eddie Murphy na descerebrada e desagradável releitura de 1998, repleta de gags escatológicas.


Agora tocou a Robert Downey Jr., como ator e produtor executivo (com sua mulher Susan), fazer as vezes do médico e explorador. Aqui ele oferece uma performance bem aceitável (como bom intérprete que é ) orientada para sua faceta “contida” – sem muita gesticulação ou naquele piloto automático perito em arremessar e arrebentar coisas, no modo super-herói Iron Man, e com um esquisito sotaque inglês. A narrativa recupera o contexto original da literatura de lofting (a Era Vitoriana do Reino Unido), e descarta o fundo colonialista com tintas racistas para deixar à vista apenas os componentes ligados às histórias de aventura e certa estrutura paradigmática das fabulas infantis dos contos de fadas. Afinal, trata-se de material com sugestões ambientalistas destinado à plateias infanto-juvenis.


Dr. Doolittle:filme é a terceira versão cinematográfica de histórias literárias publicadas a partir dos anos 1920
Dr. Doolittle:filme é a terceira versão cinematográfica de histórias literárias publicadas a partir dos anos 1920 | Divulgação
 




O argumento situa Dolittle em sua desorganizada mansão rural sete anos após a morte de mulher durante um naufrágio. Deprimido e afastado do convívio social, ele volta à ativa quando a jovem rainha Vitória fica à beira da morte e precisa de sua ajuda. Ele então embarca com sua retaguarda zoológica em uma aventura mirabolante e épica em busca da cura da soberana. Há uma intriga palaciana, muitos perigos na jornada e situações de muitos perigos. O diretor Stephen Gaghan conduz esta movimentada jornada com razoável tenacidade, e a falante bicharada CGI (sem nenhuma ofensa aos humanos presentes na história) é quem oferece a principal fonte de interesse do espectador, com espécies desenhadas a partir de interessantes peculiaridades – o urso polar friorento, o gorila ansioso, o tigre edipiano, a sábia arara, o esquilo paranoico, o mais ou menos cínico avestruz. O dragão recheado de gases é capítulo (negativo) à parte, e com certeza sua presença escatológica não poderia resultar mais desastrosa para um filme no geral inofensivo e divertido. E com certeza o menos comprometedor da série Dolittle.


Ainda a destacar. Na versão disponível com legendas, são ouvidas as vozes originais de Emma Thompson, Rami Malek, Octavia Spencer, Ralph Fiennes, Tom Holland, John Cena, Marion Cotillard, Selena Gomez, entre outros. Alguns dos melhores diálogos são ditos por eles.

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