Contra o gigante da solidão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Há pouco mais de dois meses Steven Spielberg passou pelo Festival de Cannes e mostrou em pré-estreia mundial seu titulo mais recente, este mesmo "O Bom Gigante Amigo" ("BFG The Good Friendly Giant") que entra hoje no circuito brasileiro. Provavelmente o cineasta, sempre sinônimo dos melhores entretenimentos, era mesmo o candidato com maiores requisitos para levar à tela a popular obra infantil do ficcionista galês Roald Dhal ("A Fantástica Fábrica de Chocolate", "James e o Pêssego Gigante", "Matilda") publicada em 1982, exatamente o ano em que "E.T." chegava às telas e recolhia em todo o mundo definitiva consagração.
Neste conto fantástico sobre a garota Sophie (Ruby Barnhill) e o gigante amigo das crianças (Mark Rylance, o espião russo em "A Ponte dos Espiões", primeira de uma próxima série de colaborações entre Spielberg e o ator), o diretor encontra um espelho de suas ideias artísticas, as mesmas que o converteram no maior criador de fantasias de Hollywood. A infância de imaginação escapista e heroica é encarnada pela menina órfã, que aos dez anos descobrirá de onde surgem os sonhos e que na terra dos gigantes nem todos os grandalhões são malvados devoradores de crianças. A comovente historia sobre este encontro de dois seres solitários adquire dimensão muito pessoal na perspectiva visionária de Spielberg, nesta adaptação de Melissa Mathison, autora também do roteiro de "E.T." (falecida em novembro de 2015). E no plano formal, "B.F.G." oferece um passo além nas ilimitadas possibilidades da captação digital de imagens (e efeitos computadorizados), novamente encurtando a distância entre realidade e virtualidade.
Spielberg jamais perdeu a inocência, como andaram dizendo alguns detratores. Pelo contrário. Ele a envolveu em fino manto de tristeza e num sentido de perda que o colocam ao nível do tratamento dado por alguns dos mestres que ele sempre admirou: Kurosawa, Bergman e De Sica. Neste "B.F.G." com doses certeiras de melancolia, poesia e percepção do fantástico, o cineasta coloca no lugar de Sophie, a garota protagonista, mas privilegia o ponto de vista do gigante incrivelmente solitário e repudiado por seus semelhantes e pelos seres humanos de quem se esconde com timidez carregada de carinho. Ou ausência de carinho.
Uma vez que Spielberg ficou popular e metaforicamente conhecido, e com justiça, como fabricante de sonhos, faz pleno sentido que o protagonista desta história seja literalmente isto: o gentil gigante que se dedica a capturar e colecionar fantasias oníricas, engarrafá-las e transferi-las para mentes alheias. Mais ou menos como Spielberg faz com o espectador. Sem dúvida a segunda metade do filme é impecável embora a arrancada inicial não desmereça o todo. Ela apenas se ressente de certa morosidade na colocação das ideias. E não seria este um recurso narrativo para adensar a solidão da dupla principal de personagens ?
Nesta parte dois, uma afetuosa história de amor além das diferenças e alimentada por pura emoção. E uma longa, brilhante e hilariante sequência ambientada no Palácio de Buckingham com a própria Rainha Elizabeth (Penelope Wilton, de "Downton Abbey"). Mestre narrador, Spielberg demonstra mais uma vez como se houvesse necessidade como é criar e reger facetas, dimensões e matizes. Nada mais justo do que chamá-lo o bom amigo gigante do cinema.


