Pediram ao robô que se perdesse, ele obedeceu. Disfarçado entre uma centena de máquinas iguais a ele. A tarefa de encontrá-lo ficou por conta da doutora Susan Calvin, especialista em cibernética. Há testes e perguntas capciosas, alguns segredos de Estado que não deveriam ter sido revelados e até um cientista irado e eloquente em demasia, afinal o responsável pela fuga do robô. Mas uma última cilada, baseada nas três leis da robótica (veja texto nesta página), terminará por obrigar o robô rebelde a revelar sua identidade.
Intitulada ''O Robô Perdido'', é a sexta narrativa da série de nove contos curtos que integram o livro ''Eu, Robô''. E se minha memória humanamente falível mas justa e fiel neste revival afetivo de um dos gêneros literários de cabeceira não cometeu nenhum lapso, esta é a única história do volume que se pode reconhecer em algumas poucas cenas do filme que leva o mesmo título do clássico imortal escrito por Isaac Asimov em 1950, e que tem lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2). A produção resulta tão distante da obra em que expressamente se diz baseada que elege a fórmula mais simplista para resolver a questão do robô perdido: de arma na mão, disparando para todos os lados. Com a barulheira de sempre, muita ostentação visual e sem acertar a inteligência do espectador, como prescreve a bula da robótica hollywoodiana.
Durante quase duas horas, quem está por trás do tiroteio é Will Smith. Ele é Del Spooner, detetive à antiga atuando na Chicago de 2035, num tempo em que uma poderosa corporação conseguiu que um em cada cinco humanos tenha em domicílio um dócil e serviçal robô. O policial é alguém obcecado, um ''robófobo'' transtornado pela maldade inata dos robôs. Esta espécie de pesadelo pessoal o roteiro transforma em paranóia, sem dar maiores explicações, a não ser um acidente recente que complicou sua carreira e um divórcio que o deixou emocionalmente fragilizado mas só emocionalmente, porque o moço não dá ponto sem ação. No momento ele investiga o aparente suicídio de um gênio da ciência robótica, Dr. Alfred Lanning (James Cromwell). Claro, há algo mais, inclusive com a possibilidade de ter sido um assassinato cometido por um robô.
Com a ajuda da psicóloga (de robôs) Susan Calvin (Bridget Moynaham), o detetive segue as pistas e chega até o principal suspeito, o sofisticado e agressivo robô Sonny, que alega inocência. Tudo se complica a partir daí, e há indícios de estranhas conspirações tramadas na sombra. Já não há mais dúvidas: o futuro da humanidade está em jogo, e salvá-la é tarefa para o super bad boy Will Smith, que vem acumulando inusitados personagens quase sempre envolvidos com seres idem ''Independence Day'', ''Homens de Preto'' e por aí vai.
Muito mais inspirado em filmes como ''Robocop'' (o tema da corporação-vilã), ''Minority Report A Nova Lei'' (os penduricalhos futuristas) e até de um modo distante em ''Blade Runner'' (quando à sua maneira pergunta se andróides sonham com ovelhas, elétricas ou não), ''Eu, Robô'' se apóia inteiramente no ágil carisma de Smith, na exuberância da construção formal projetada pelo diretor australiano Alex Proyas e pelo desenhista de produção Patrick Tatopoulos (a dupla de ''O Corvo'' e ''Dark City'') e na incontestável expressividade dos robôs, outrora cinematograficamente mecânicos e agora também eletrônicos cerca de 900 planos receberam retoques infográficos de alta definição. Este e outros recursos tecnológicos de ponta, aliás os mesmos utilizados em ''O Senhor dos Anéis'' na criação do Gollum, farão a festa dos espectadores cativos da virtualidade. Para o consumismo popular, isto deve bastar.
Não se pode negar ainda empenho na construção de algum suspense e certa tensão, e também algumas (raras) observações de teor sociológico, muitos furos acima, por exemplo, do desastre que foi a adaptação de ''O Homem Bicentenário'', outro título de Asimov levado às telas. Mas o que se disser a favor de ''Eu, Robô'' estará comprometido pelo equivocado personagem Spooner, a rigor um pesadelo para qualquer aficionado da ficção científica. Armado, perigoso, desprovido de lógica e, portanto, de razão, Spooner-Smith é quem conduz a trama para aquele aleatório e movediço território exclusivo de tiroteios e perseguições, tudo aquilo que Asimov, engrandecendo o gênero, sempre procurou excluir de suas histórias.

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