CINEMA - Nem todos são robôs na era Bush
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de agosto de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''O que foi isto que vivemos nos últimos quatro anos? Foi somente um sonho?''
Com esta pergunta carregada de frustração e perplexidade, o polêmico Michael Moore abre seu documentário ''Fahrenheit - 11 de Setembro'', fenômeno único não apenas em relação ao gênero, mas e não é demais afirmar à própria história do cinema. Esta superestimativa tem rigorosa procedência, não apenas avalizada por números inéditos (milhões de dólares e público) que só fazem aumentar mundo afora, mas também pela extensa corrente crítica amplamente favorável mas não unânime, o que só engrandece o filme que tomou conta da mídia especializada a partir da estréia mundial no último Festival de Cannes, de onde ''Fahrenheit 9/11'' (título original) saiu consagrado com o prêmio máximo, a Palma de Ouro. Uma premiação acima de tudo política, embora sejam evidentes suas qualidades também enquanto trabalho cinematográfico.
Duas horas depois da incômoda questão inicial proposta, a conclusão é que aquilo que os americanos viveram nos últimos quatro anos e o restante do planeta, via nefasta consequência imperial foi (é) um pesadelo. De maneira quase linear, Moore expõe os fatos desde a decisão da Suprema Corte de Justiça, que entregou a presidência a George W. Bush após um processo eleitoral recheado de ilegalidades, até as desastrosas consequências da ocupação do Iraque pelo exército da coalizão liderado pelos Estados Unidos.
O diretor e sua equipe foram incansáveis e implacáveis na coleta da documentação que articula e dá suporte ao roteiro, sempre instigante e manipulador sim, o próprio Michael Moore reconhece sua subjetiva objetividade a serviço de uma causa definida. Imagens (no calor da hora e de arquivo), áudio (texto em off e depoimentos), textos impressos das mais variadas matrizes. Há de todas as fontes, para todos os gostos, com uma única finalidade: responsabilizar Bush, acuar Bush e criar condições para que sua figura pública (e privada) seja identificada com uma forma nefasta de poder, alguém que pode não apenas comprometer os destinos do país como do mundo facilmente globalizável pela franquia de uma idéia de ''profilaxia ideológica'', ou ''ideologia do bem''.
Um desses documentos dá bem a medida da habilidade e do oportunismo desse corpulento ativista nascido no Michigan, há 50 anos, desse artista talentoso sempre à caça de conspirações. Há sete minutos antológicos em ''Fahrenheit - 11 de Setembro''. O material já havia sido divulgado, mas fica como novo pela maneira como Moore trabalha o tempo à sua conveniência. É o período cronológico que Bush passa na pequena sala de um jardim de infância na Flórida, a partir do momento em que seu assessor entra para dar a notícia de que um segundo avião foi arremessado contra o WTC até o instante em que presidente deixa de ler o livro ''Meu Cabritinho''. Por pequena fração de tempo que é uma eternidade, fica a olhar o nada com aquela sua expressão de olhar...o nada. Crueldade? Sadismo? Pode ser, mas um tour de force brilhante, quando tempo real e tempo dramático se fundem causando um efeito devastador.
Nesta cruzada contra a administração Bush, ''Fahrenreit - 11 de Setembro'' não economiza munição pesada. Um dos cavalos de batalha deste documentário levado em nível de seriedade e sobriedade, mas aqui e ali entrecortado pela lâmina do humor ácido de Moore, são as relações enviesadas entre as famílias Bush e Bin Laden depois dos anos 70, envolvendo imensos interesses econômicos (os sauditas têm US$ 860 bilhões investidos nos EUA, 7% por cento do PIB americano), o intermediário americano, um certo James R. Bath, e o saudita Salem Bin Laden. É claro que este é um ponto de partida e sustentação importantes, mas é apenas um dos muitos elementos desse filme desassombrado que vai fundo na questão da invasão americana no Iraque. Desde a paranóia pós 11 de setembro, plantada pelo governo Bush, até a estarrecedora tortura de prisioneiros iraquianos nas celas de Abu-Ghraib e a estúpida perda de vidas de ambos os lados. Moore não poupa ainda a questão do desemprego no país, ''aliviada'' pelo aliciamento remunerado de jovens que acabam morrendo em qualquer frente de combate mundo afora.
Na entrevista que concedeu dia 18 de maio no Hotel Majestic-Barrière, durante o Festival de Cannes 2004, um Michael Moore até então apreensivo (a Disney, distribuidora do filme nos EUA, ameaçava boicotar o lançamento, e a Palma de Ouro ainda estava incerta) respondeu ao enviado da Folha2 se achava ''Fahrenheit'' um filme realmente explosivo: ''É explosivo no sentido de que, ao longo dos últimos anos, eu obtive a atenção de um público muito mais amplo do que qualquer pessoa de esquerda geralmente consegue. Acho que penetrei fundo no coração dos Estados Unidos, e acho que é isso que está incomodando. É preciso lembrar que no país 50 por cento das pessoas não votam. Se eu conseguir atingir apenas 10 por cento desse universo, se eu der uma boa sacudida neles e fornecer uma razão para irem às urnas em 2 de novembro, com certeza isso vai deixar muita gente nervosa. Aliás, já está deixando''.


