É sempre bom estar de olho nas personalidades artísticas mais velhas, se a intenção é reconhecer suas trajetórias ainda em vida. Prêmios póstumos são sempre constrangedores. Principalmente para quem já morreu e tem a obrigação de enfarpelar o espírito com smoking para receber, com irrecuperável atraso, aquilo que lhe era de direito em vida. Felizmente a Biennale, pelo menos neste ponto, está livre de críticas. Mais justa impossível, a homenagem prestada aqui em Veneza a dois grandes do cinema mundial.
O mais jovem já celebrou 80 e dança desde os 10. Levou a Hollywood sua exímia destreza musical. E também a leveza, que foi sempre sua marca registrada - mesmo quando contava uma história de suspense. O mais velho é um fenômeno de vitalidade. Aos 95, trouxe este ano ao festival sua mais recente invenção (mas não seu último filme, já anunciou), exibido fora de concurso: ''O Quinto Império - Ontem Como Hoje'', adaptação de uma peça do poeta português José Régio, transformada pelo diretor em metáfora sobre a União Européia.
É difícil estabelecer coincidências entre o americano Stanley Donen e o português Manoel de Oliveira, além de serem dois maestros do cinema. Mas a direção da mostra foi sábia ao estabelecer o critério para entregar a eles o tradicional ''Leone D'Oro alla Carriera'': ambos deixaram marcas profundas no cinema do século XX, contribuindo para redefinir a modernidade.
Nomes familiares para os cinéfilos, é provável que sejam bem menos conhecidos do grande público do que alguns títulos das respectivas filmografias. A Donen se deve um clássico que pouca gente não curtiu, pelo menos uma vez na vida, principalmente na televisão: ''Cantando na Chuva'', a comédia musical de 1952 co-dirigida por Gene Kelly que tão harmoniosamente soube combinar danças e canções com uma irônica evocação dos primórdios do cinema sonoro. Seu encanto é o de sempre, e com certeza para sempre.
Mas Donen tem outros títulos dos quais o cinema (e ele, claro) se orgulha, como ''Um Dia em Nova York'' (1949), ainda com a colaboração de Kelly, e ''Royal Wedding'' (1951), sua estréia-solo em que fez Fred Astaire literalmente subir e dançar pelas paredes. São dele o delicioso ''Sete Noivas Para Sete Irmãos'', de 1954, ''Cinderela em Paris'' (57) e os suspenses sofisticados ''Charada'' (1963) e ''Arabesque''(1966). Não filma desde 1983, fazendo somente uma ou outra coisa para a televisão. Embora meio sem jeito, dançou e cantou rapidamente em 1998, quando a Academia lhe entregou um Oscar honorário.
Seja pelo peso da ditadura de Oliveira Salazar, que o impediu de filmar por muitos anos, ou porque o cinema português não tinha maior penetração, ou ainda porque seus filmes eram mais complexos do que seu colega americano, o outro Oliveira, Manoel, só ficou conhecido fora da Europa depois que alguns de seus trabalhos foram vistos em ciclos exibidos em cinematecas ou em festivais. Dono de um estilo depurado, enxuto e essencial, de Oliveira foi só consagrado no Brasil em 1997 com ''Viagem ao Princípio do Mundo''. Filmes posteriores como ''Vou Para Casa'', ''Porto da Minha Infância'' e os mais recentes, ''O Princípio da Incerteza'' e ''Filme Falado'', firmaram ainda mais o justo reconhecimento deste criador sempre jovem, que ganhou em sabedoria sem nunca renunciar a seu espírito independente e inovador.

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