Está lá no Google - acreditar ou não depende de você - a definição de manifesto: "gênero textual que consiste num espécie de declaração formal, persuasiva e pública para a transmissão de opiniões, decisões, intenções e ideias". Esta pode ser também a síntese de uma ambiciosa obra do videoartista alemão Julien Rosefeldt, que nasceu e aconteceu inicialmente em 2015 como instalação artística, exibida no Australian Centre for the Moving Image, o Museum für Gegenwart de Berlim e o Park Avenue Armory de Nova York. E que em 2017 virou um desconcertante e sugestivo longa metragem experimental, estreando no Sundance Festival. De qualquer forma, seja para que plateia for, tanto para aficionados da arte como para cinéfilos, este "Manifesto" que o Cine Com-Tour/UEL exibe a partir de desta quinta-feira (13) é um privilégio. Sem dúvida, trata-se de uma homenagem exemplar à tradição dos manifestos artísticos.

Cate Blanchett dá voz a 13 manifestos, interpretando personagens tão diferentes quanto uma coreógrafa e um sem teto
Cate Blanchett dá voz a 13 manifestos, interpretando personagens tão diferentes quanto uma coreógrafa e um sem teto | Foto: Reprodução



A ideia de Rosefeldt partiu da leitura de artigos futuristas. Ele começou a ler qualquer manifesto que encontrava, incluindo textos sobre teatro, cinema, dança e arquitetura. Durante essas leituras, iam surgindo ideias que reapareciam aqui e ali mais de uma vez. Característica essencial: todas expressadas com energia e um entusiasmo utópico. Segundo o artista, todos os manifestos lidos eram uma espécie de testemunho sobre a busca da própria identidade expressada ao mundo em voz alta e insegura. Ele então começou a criar uma peça audiovisual que aglutinasse as ideias contidas em textos escritor por futuristas, dadaístas, supremacistas, situacionistas, comunistas, surrealistas, minimalistas e também reflexões de arquitetos, bailarinos e cineastas.

Desta maneira, o alemão Rosenfeldt organizou em imagens 13 manifestos artísticos onde são citados textos de André Breton, Sol Lewitt, Jim Jarmush, Alexander Rodchenko, Claes Oldenburg , Lucio Fontana, Dziga Vertov, Wassily Kandinsky, Vicente Huidobro, Francis Picabia, Adrian Piper, Werner Herzog e Lars von Trier.

Viria então a angústia do criador: como formatar tudo isso? A solução - e que solução! - foi contar com um autêntico 'tour de force' da atriz australiana Cate Blanchett, que simplesmente lança novas luzes ao conceito de versatilidade. Através de 13 personagens tão díspares como um sem teto, uma coreógrafa, uma cientista, uma viúva ou uma professora, entre outros, ela empresta voz e imensa criatividade para personificar todas as ideias fundamentais para entender a história da arte do vigésimo e último século do milênio.

Levando em conta que a atriz, por causa de uma agenda sobrecarregada, teve apenas 11 dias de filmagens para dar vida a esta coleção de personagens, foi uma verdadeira prova de fogo criativa, somente ao alcance de alguém com tanta e sutil versatilidade. Os manifestos que Blanchett vocaliza refletem as dúvidas das gerações de quando eles procedem. A paixão que ela empresta aos textos transcende as barreiras do tempo, conduzindo a uma constante indagação sobre o quanto a dinâmica entre politica, arte e vida terá mudado.

Assim, foram compreensíveis as críticas efusivas como as do New York Times ("se dessem um Oscar no mundo da arte, Blanchett com certeza ganharia o dela") ou da publicação online Indiewire ("uma autêntica masterclass de interpretação"). O diretor Rosefeldt tampouco poupou elogios a Blanchett: "Mudar de identidade para ela é como trocar de roupa. É uma homenagem a seu incrível talento. Sua maneira de trabalhar é uma busca constante da complexidade da condição humana".

Quanto à estrutura do filme, não se trata de recuperar os variados manifestos de forma linear. E muito menos subserviente. Rosefeldt desloca os textos para os mais insólitos cenários, conferindo ressonâncias inesperadas, ora graves, ora irônicas, ao conteúdo do Manifesto Comunista de Marx e Engels, à celebração fundamental do surrealismo de Breton ou aos princípios práticos do diretor dinamarquês Lars von Trier e do Dogma 95. São variações dobre as mais diversas formas de utopia, numa aventura que começa no tempo histórico para onde os manifestos remetem e desembocando no presente (questionando o papel do artista na sociedade atual) através dos milagres da transfiguração providenciados por Blanchett.

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