Friedkin dirige Lind Blair em "O Exorcista"
Friedkin dirige Lind Blair em "O Exorcista" | Foto: Fotos: Divulgação



Um dos homenageados da recém-encerrada Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi o diretor norte-americano William Friedkin. Veio dar uma master class. Não fui, mas teria ido para ouvi-lo mais um vez, não fosse por um detalhe: Friedkin foi o convidado de honra este ano para uma das mais concorridas seções paralelas do Festival de Cannes, a Leçon de Cinéma. O evento, ocorrido no dia 18 de maio, teve como foco a carreira do cineasta. E o meneur de débat, ou o condutor da conversa, como ocorre com frequência em Cannes, foi o veterano crítico, escritor e pensador de cinema Michel Ciment, o atual editor-chefe da revista Positif.

Foram mais de duas horas de um dos encontros inadiáveis de Cannes 2016. Com William Friedkin, 81, um dos diretores mais iconoclastas da chamada Nova Hollywood. O grande Friedkin, responsável por ícones como "Operação França", "O Exorcista" e "O Comboio do Medo", "Viver e Morrer em Los Angeles", falou a Michel Ciment e a uma plateia de atentos cinéfilos. Com humor e sagacidade, ele discorreu sobre a espontaneidade de seus atores (o método actor studio) como necessidade absoluta, o medo irracional e a paranoia como ultima fronteira. Sem duvida nada de novo para um leitor assíduo das memórias do cineasta, mas uma maneira lúdica de apreender seu universo que se equilibra entre a tentação do documentário, do ocultismo e a angústia metafísica.

Balizada cronologicamente, o diálogo entre Freidkin e Ciment não foi tanto uma "leçon de cinema", mas antes uma master class impertinente. Sua paixão pelo cinema veio depois de ver "Cidadão Kane", os filmes de Hitchcock e a descoberta da Nouvelle Vague. O tempero foi a Chicago multicultural, os livros, John Coltrane e Miles Davis, tudo evidenciando uma sensibilidade precoce pela avant-garde. Apesar de alguns fracassos espetaculares (quatro, ele disse), Friedkin não perdeu o fio da conversa. E vários trechos de filmes também iluminaram o encontro que superlotou a sala Buñuel.

Atenção especial foi dedicada a "Os Rapazes da Banda"(1970), espécie de huis-clos entre comedia e tragédia. Pioneiro, o filme trata de esquadrinhar os horizontes limitados de seis homossexuais confinados num apartamento exíguo. O tom a princípio vai da delirante comédia slapstick até desembocar na violência. Em seguida Friedkin filma "The French Connection", seguindo uma sugestão de Howard Hawks , que recomendou um filme de ação para contrapor a um filme sobre um grupo de gays. Ele afirma que "Z" , de Costa-Gavras, foi uma das principais influências para "Operação França". Pequena anedota revelada por Friedkin: embora nunca existisse um roteiro escrito para "French Connection", o filme obteve um dos cinco Oscar justamente nessa categoria.

Outra evocação de influência sobre sua obra foi o quadro "O Império das Luzes", de Magritte, para "O Exorcista" – "O instinto é a palavra chave, mais do que o roteiro, a filmagem e a montagem", diz ele. Realizado em 1973, "The Exorcist" em parte é o resultado de sua fascinação por Jesus Cristo, mesmo ele confessadamente não sendo crente ou praticante.

Talvez seu filme mais subestimado, "O Comboio do Medo", refilmagem de "O Salario do Medo", de René Clément, parece ser uma espécie de filho preferido (dele) mas enjeitado (pela maioria das pessoas). Sobre ele, Friedkin se detém por um bom tempo. Assim como sobre "Viver e Morrer em LA", outro menos prezado mas também de sua especial predileção.

Sobre seus últimos dois filmes. "Bug" e "Killer Joe" são adaptações de peças teatrais, romances de Harold Pinter, autor que ele considera como seu alter ego quanto à relação com a paranoia e aquele indefectível medo irracional. Há em comum ainda uma visão depressiva do mundo, feita de múltiplas ambiguidades.
E ele conclui: "Para mim, a realização cinematográfica é uma aventura e uma educação. É tudo.

O diretor no Festival de Cannes, em maio
O diretor no Festival de Cannes, em maio
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