Sonia Braga como Clara em ‘Aquarius’: amplitude de recursos dramáticos
Sonia Braga como Clara em ‘Aquarius’: amplitude de recursos dramáticos | Foto: Divulgação



Vou deixar de lado a(s) polêmica(s), na verdade uma só (aquela gerada pelo protesto político em Cannes e desdobrada esta semana com "Aquarius" preterido por "Pequeno Segredo" na corrida brasileira em busca de seu primeiro Oscar de melhor filme estrangeiro). A esta altura o espectador já formou juízo se houve ou não retaliação contra o filme de Kleber Mendonça Filho. Mas neste espaço, neste momento, interessa o filme, que está sendo lançado hoje em Londrina em três salas depois da estreia nacional que obteve público de mais de 100 mil espectadores, praticamente obrigando a distribuidora Vitrine Filmes a ampliar consideravelmente o circuito. E quando "Pequeno Segredo", ainda inédito no país, se apresentar na cidade, necessariamente o confronto será inevitável.

Depois de um cartão de visitas ficcional de alto desempenho ("O Som ao Redor"), Kleber Mendonça Filho ratifica agora sua condição de um dos diretores mais inteligentes e provocadores do atual momento do cinema brasileiro. O cineasta pernambucano é especialmente hábil em como fazer cinema político sem golpes baixos e explícitos ou denúncias fora de tom ou exageradas. "Aquarius" narra a história de Clara (Sonia Braga), na casa dos 60, viúva, jornalista aposentada e com respeitável passado como crítica musical – atenção para a trilha escolhida a dedo e memória pelo diretor: ela joga papel determinante na narrativa e funciona como personagem com muito a dizer. A personagem vive no Recife em antigo edifício dos anos 1940, o "Aquarius" que é parte essencial de existência, na orla da praia da Boa Viagem já invadida pela predadora ambição imobiliária que aos poucos desfigura a paisagem urbana. Clara vive rodeada por milhares de discos e incontáveis lembranças. Mas sua paz vem sendo minada por uma das tais incorporadoras, que já comprou todos os apartamentos do imóvel e tenta – por todos os meios(de início por boas maneiras e muito dinheiro, depois por pressões legais e hostilidades ilegais, mais ou menos à moda do banditismo sertanejo. Aliás, um sertanejo universitário, com formação em "business" em Chicago, é seu maior algoz.

"Aquarius", de certa forma uma extensão da temática de "O Som ao Redor" mas narrado de forma mais tradicional, está focado em três frentes: a construção da personagem , psicológica e física (a terceira idade e suas implicações), o núcleo familiar (filhos e suas complicações, e mais a fiel empregada doméstica) e entorno social e político, com as diferenças de classe e os abusos e misérias dos poderosos. Mas há um nível político mais profundo: o filme é uma celebração do valor existencial da memória.

Memória política, memória dos bens materiais (além da coleção de vinis, há uma cômoda antiga que Clara acaricia em seus escaninhos), memória cultural (os hits musicais de épocas que se sucedem), memória do corpo (Clara teve um câncer, fez mastectomia sem prótese posterior) e do desejo – mulheres como Clara, belas em sua maturidade, não deixam de gostar e de fazer sexo, por mais resistência que Hollywood queira impor aos padrões mundiais de comportamento.

"Aquarius" dribla todas as armadilhas que fariam dele um filme de denncia previsível, mecânica, maniqueísta. E ganha alcance de universalidade ao falar francamente de Clara, essa biografada inteligente, segura, culta, educada e independente, embora um tanto solitária. E ao falar também do país, deste país, o filme empreende uma batalha cultural, além de econômica. Clara é o porta-voz inequívoco, é o eixo humano poderoso e palpável, em quem se acredita. Mas para tornar possível esse discurso, era preciso não uma atriz de qualquer carisma, mas alguém como Sonia Braga, alguém que, além da beleza, se impusesse também pela amplitude de recursos dramáticos. Sem Sonia, Clara não teria em cena a maturidade e energia necessárias.
A ela Kleber deve uma considerável parcela do sucesso do filme. Filme que é claramente uma reflexão sobre um Brasil que está sendo carcomido por dentro de maneira muito similar aos cupins que estão corroendo o edifício Aquarius. Na verdade, as saúvas de Mario de Andrade nunca ficaram saciadas.

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