Ambíguas e perversas, as séries seduzem
As séries quebram a moralidade conservadora da televisão, um bom exemplo é 'Ozark'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de junho de 2020
As séries quebram a moralidade conservadora da televisão, um bom exemplo é 'Ozark'
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ especial para Folha 2 
Fenômeno insidioso, este das séries do século XXI, caracterizado por explodir a moral do (tele) espectador tradicional. A moralidade conservadora da televisão de velhos tempos, aquela do melodrama que promoveu o culto a valores como amor, família, propriedade e religião foi arquivada. Os mocinhos não são mais a polícia ou a imprensa. Não há mais bons, os protagonistas vivem fora da lei e expressam a amargura de uma espécie de existencialismo pop. Que consiste em supor que capitalismo e democracia são uma fraude e que todos são sobreviventes dessa conspiração montada por governos cínicos, empresários sem alma e políticos corruptos. Tudo exala forte cheiro de putrefação, tudo menos os (auto) proclamados seres pensantes do lado de cá da telinha, que perceberam que essa sociedade conspira contra eles. Por isso, o universo serializado comemora personagens moralmente ambíguos a partir de temas ousados, com estética sublime e que permite que o público aproveite o proibido e comemore o ilegal.
Como todo produto cultural, as séries inventaram seu próprio público especifico, feito de espectadores criados para ultrapassar a fronteira da indústria cultural nacional, habitar referências globalizadas e pensar no grupo social a partir do já citado existencialismo pop – se reconhece que tudo está errado e que nada se pode fazer, a não ser tentar críticas irônicas e produzir um estilo de vida sarcástico. Para que a diversão seja possível, as séries requerem como único requisito uma cultura global. Porque para vê-las é preciso conhecer referências globais, cultura pop e ter uma boa bagagem de cinismo contemporâneo.
O espectador é quem impõe os limites “morais” desse universo de ideias e formas que ele deseja ver, e por isso aparecem temáticas cada vez mais audazes e atuais. Desde 1990, quando o “Twin Peaks” de David Linch propôs um delirante jogo misturando pastiche, sentimentalismo, mistério, improvisação, aberrações, amoralidades e humor estranho, estava criada a figura do espectador série-adicto. Vieram “Os Sopranos”, “Mad Men”, “Dr. House”, “Dexter”, “House of Cards”, “Breaking Bad”, “Lost”, “Walking Dead”, “The Wire”, “Homeland”, “Black Mirror” ,“Game of Thrones”, “Orange is the New Black”, “Masters of Sex”, entre outras. Com recheio, sempre intenso: mentiras, cinismo, corrupção, perversidade, insanidade, faxina social, sexo em formas diversas, perversão/sedução.
Tome-se “Ozark”, ainda em andamento, como exemplo mais à mão. Pelas vias da série. Como a maioria de suas antecessoras, ela se atreve a tudo. Seu público alvo potencial são os descolados cínicos e existencialistas de consumo, os patifes da ingenuidade (sem ofensa...). Abundam todas as ilegalidades, imagináveis ou não.
O argumento rompe com o politicamente correto: drogas, álcool, baixarias em profusão. Ao final de cada capitulo e da cada temporada (são três, até o momento) fica a sensação de o mundo e o teatro de uma grande conspiração politico-empresarial contra tudo e contra todos; de que o capitalismo e as autoridades e os empresários vão roubar (e matar, se preciso for) a todos, os espectadores inclusive. Mas há um pormenor: a série conta esses males sem o medo de que esta plateia do streaming se abale e tome qualquer providência, que não a de assumir este pesadelo da ficção (?) em lugar dos angustiantes números da pandemia.
Todos os protagonistas da série deveriam estar na cadeia ou internados em clínicas psiquiátricas. Acho que está aí a sedução das séries: afinal, os mais triunfam e é possível usar métodos de para-legalidade para existir. Por isso as séries são sobre personagens ambíguos em sua moral, obscuros em sua motivação, enigmáticos em seus sentidos e movimentos. Todas as subjetividades são obscuras, dolorosas, em busca de algo que lhes forneça sentido. Nas séries estão todas as chaves para criar, pensar, imaginar e comunicar nesse nosso tempo. Todos os temas são propícios para realizar uma série, e melhor se são sobre perversão familiar (a familia Byrde de “Ozark” não é simplesmente disfuncional: é a mãe de todas as disfuncionalidades familiares), a disfunção politico-econômico-social da sociedade do capital. A única condição para o sucesso é revestir estes contornos com um look de obscuridade e penumbra estética e afetiva que fornece o tom de toda série aspirante ao status de cult.
Por último, mas não menos importante. As séries criam um novo entretenimento cínico, amoral e descarado, mais próximo da escuridão do que da luz, mais cinza do que dualista. Aquele em que a família é uma instituição falida, a religião é mero negócio e sexo e violência correm soltos.


