O Cinéfilo Fiel -

A tempestade. Depois da tempestade

De que se trata ? Da sobrevivência do cinema comercial de Hollywood pós-coronavírus. Entre outros blockbusters, “Top Gun: Maverick” e “Mulher Maravilha” desapareceram da agenda de verão nos EUA. E o último "007" perdeu US$ 200 milhões em marketing

  2019 foi o ano mais lucrativo da história de Hollywood. A arrecadação dos filmes foi de mais de 35 bilhões de dólares em todo mundo. Só os estúdios Disney estrearam sete filmes que arrecadaram mais de um bilhão cada. E um deles – “Vingadores: Ultimato”, claro – se tornou a maior bilheteria de todos os tempos. Hoje, no entanto, a indústria cinematográfica estadunidense  enfrenta seu momento mais crítico.


 

A aguardada estreia do remake de "Mulan", prevista para julho, está suspensa
A aguardada estreia do remake de "Mulan", prevista para julho, está suspensa | Divulgação
 

A propagação da Covid-19 paralisou Hollywood  por completo. Filmagens de projetos como “The Batman”, “Jurassic World: Dominion”, “Matrix 4”, “Missão Impossível 7” e a refilmagem de “A Pequena Sereia” foram suspensas. Também suspensas estreias muito aguardadas como do remake de “Mulan” (julho, talvez), da sequência de “Um Lugar Tranquilo 2” , que deveriam estrear em março; de “007 - Sem Tempo para Morrer” , em abril, e “Black Widow”, em maio.




As salas de cinema de todo o mundo, necessárias para que os grandes estúdios façam sua planificação, continuam fechadas; e cerca de 140 mil trabalhadores do setor perderam seus empregos nos EUA. Estima-se que, mesmo na melhor das hipóteses, se a situação voltar ao normal até o final de junho, o setor perderá 17 bilhões de dólares nas bilheterias. Mas isso não importa o que Trump disser, não vai alterar o fato consumado da total revisão nos mapas dos exibidores, privados de seus potenciais sucessos de verão.


 Muitos outros títulos estão na dependência da volatilidade do vírus. E este tabuleiro de xadrez sanitário continua provocando estragos nas finanças dos produtores/distribuidores/exibidores. Desta agenda do verão nos EUA ainda faziam parte “Velozes e Furiosos 9”, “Caça Fantasmas: Mais Além”, o novo “Minions”, “Jungle Cruise” e “Tenet”, o novo Christopher Nolan. Muito dinheiro em caixa.

Deve-se lembrar que as grandes rendas do verão (julho/agosto/setembro)  fornecem aos estúdios 40 por cento da renda anual – o que significa, portanto, o financiamento para o resto da produção. E não há meio termo: são filmes para serem vistos em salas amplas, com telas imensas e repletas de gente. Sem distanciamento social...

 

O fato é que a pandemia chegou no momento em que o vídeo sob demanda já estava em curva ascendente, enquanto a venda de ingressos em salas permanece em linha reta, flertando com o declínio . Esse desencontro levantou questões sobre a relevância das salas de cinema no momento em que milhões de “confinados” se voltaram para plataformas, veteranas e/ou emergentes no mercado de “horas de isolamento”. 


No papel – e isto é verdade – para filmes que custam centenas de milhões de dólares e exigem outras dezenas de milhões a mais para as despesas de distribuição e publicidade, a estreia online não faz sentido financeiro, e por várias razões: primeiro, muitas dessas plataformas ainda não estão ativas em suficientes territórios ; segundo, porque o risco de pirataria é muito alto; e terceiro, o sucesso desses blockbusters não depende apenas das bilheterias, mas muito também dos produtos de merchandising que , se a experiência do filme em sala coletiva desaparecer da equação, eles param de vender.


LANÇAMENTO ONLINE

 Nada disso, por outro lado, impediu que os estúdios da Universal decidissem lançar uma das apostas de filmes infantis para 2020, “Trolls World Tour”, diretamente online, no mesmo dia da estreia nos cinemas (10 de abril), cruzando uma linha que Hollywood considerou intocável (Netflix que o diga). Outros exemplos podem seguir nesta mesma  linha e atenuar os efeitos da Covid-19, desviando alguns de seus produtos mais atraentes para a Internet. Arrecadar um pouco menos é melhor que não arrecadar nada. 

 

Em todo caso, não é a primeira vez que Hollywood se vê diante do abismo. Embora nunca tenha enfrentado crise de tal magnitude. Ao longo do século 20, a “meca” precisou se redefinir em várias ocasiões: quando a era do cinema mudo chegou ao fim, em fins de 1920; quando a televisão invadiu massivamente as casas nos anos 1950; quando o sistema de estúdios  conheceu sua decadência nos anos 1960; quando teve que superar o pânico provocado pelo home vídeo e descobriu o conceito de blockbuster nos 1980 e quando  fez da produção de grande sucesso sua verdadeira razão de ser após a virada do século.


 Agora, como se o fosse o letal protagonista de um filme de catástrofe, o vírus está forçando Hollywood a reconfigurar-se não apenas do ponto de vista econômico e industrial, mas também cultural e simbólico. Qual será sua nova realidade ?



   

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