A magia que se multiplica
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quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

A varinha mágica da bruxa J.K.Rowling não para de trabalhar, apontada em todas as direções. E os resultados são, no mínimo, estimulantes. Ainda que o protagonista (Eddie Redmayne) e o vilão (Colin Farrell) não cheguem a brilhar intensamente, "Animais Fantásticos e Onde Habitam" apresenta boa fluência e é entretenimento de primeira ordem. E o mais significativo está distante por completo da solenidade e do cinismo da safra recente do cinema de super-heróis. O filme, em segunda semana de exibição, traz a assinatura de David Yates, responsável pelos quatro títulos que encerraram a vitoriosa série Harry Potter.
"Fantastic Beasts and Where to Find Them" a princípio foi o título de um livro mencionado como texto escolar na saga de Harry Potter, e em 2001 surgiu como um guia de criaturas mágicas, sem desenvolvimento dramático. Agora, dezesseis anos mais tarde, aquela criação quase marginal se converte na abertura de um spin off (em cinema, uma franquia que é derivada de outra) e na estreia da própria escritora J. (Joanne) K. (Kathleen, "emprestado" de sua avó) Rowling como roteirista sem dúvida uma enorme vantagem que coloca criadora e criaturas numa mesma sintonia, para o êxito ou o fracasso. Aqui, tudo aponta para o êxito desta legítima descendência de um dos maiores fenômenos literários e cinematográficos já saídos do território inesgotável do imaginário fantástico.
Se o público espera uma prequela (narrativa com elementos ambientados no mesmo universo ficcional, mas com história que antecede ao filme em questão) dos sete livros e oito filmes de Harry Potter, vale a advertência: as referências e conexões são mínimas, pelo menos nesta abertura da nova saga. O novo protagonista, Newt Scamander, é proveniente de Hogwarts e se faz menção a Albus Dumbledore, que aparecerá nos próximos filmes em versão juvenil. Mas os personagens, a época (1926, período entre guerras), a cidade (Nova York), os conflitos são inteiramente novos e para além de Harry, Hermione e Ron é bom que seja assim. De qualquer maneira, a presença do diretor Yates garante uma necessária continuidade, especialmente no estilo visual mais clássico e no pulso narrativo.

Newt Scamander (um Eddie Redmayne fora de sintonia do resto do elenco e do espírito lúdico do filme mais parece um freak que já interpretou em outros filmes, cabeça retorcida, olhar para o chão, sussurro interno como voz, tudo ao estilo Actors Studio, mais parecendo um bruxo autista do que qualquer outra coisa) chega aos EUA com sua maleta repleta dos queridos animais fantásticos do título. Logo encontrará um "trouxa", ou um humano não bruxo, um candidato a padeiro na pele do simpático e divertido Dan Fogler, e duas belas bruxas, as irmãs vividas por Katharine Waterston e Alison Sudol. O quarteto passará por aventuras e desventuras e enfrentamentos com o Congresso de Magia dos Estados Unidos, conduzido com mão de ferro pela presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo) e sobretudo Percival Graves (um inexpressivo Colin Farrell).
Enquanto falta carisma a Redmayne, a tensão romântica (com sugestão de amor impossível) entre uma bruxa e um não bruxo vai ganhando espaço e interesse. A reconstrução de época e a utilização de efeitos especiais são extraordinários (os 180 milhões de dólares do orçamento se fazem notar, mas sem ostentação). As aparições das pequenas ou gigantescas criaturas exóticas não são invasivas, pelo contrário, fascinam os menores e divertem os adultos. Vale muito para o bom concerto geral a aposta humanista, lúdica e nobre de Rowling, triunfante em meio à solenidade cínica que é marca registrada do acervo atual do super heroísmo estilo Marvel. A trama de "Animais Fantásticos..." é muito rica em leituras políticas e sociais, especialmente nesta época pós-Trump , na qual os debates sobre minorias, qualquer tipo de fascismo político e crescentes atos de rebeldia são notícia todos os dias. Rowling toca em vários desses temas como a caça às bruxas, literal e/ou metaforicamente.
"Animais Fantásticos..." é um sólido e honroso filme de aventuras para adultos e adolescentes (como nos últimos Harry Potter, a aposta de Rowling/Yates já não é tanto para crianças) que consegue evitar aquela bateria de clichês das superproduções contemporâneas. Com toda certeza nasce aqui uma nova saga - Johnny Depp aparece ao final como trunfo de relevância, já que se converterá no principal antagonista nos próximos filmes da série no papel de Grindelwald -, e desde já cria animadoras expectativas.


